Escrito em Fevereiro 24th, 2008 às 4:47 pm por Paulo Páscoa

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NAS PÁGINAS de história não existem cidades mais glamourosas do que a Babilónia. Seu próprio
nome evoca visões de riqueza e esplendor. Seus tesouros de ouro e jóias eram fabulosos. Alguém
logo imaginaria que uma cidade próspera como essa só poderia estar situada numa pujante região
tropical, cercada por ricos recursos naturais, como florestas e minas. Pois não era o caso. Ela
estava localizada junto ao rio Eufrates, num extenso e árido vale. Não tinha florestas nem minas —
e muito menos pedras para construção. Não se achava sequer próximo a uma daquelas estradas
comerciais da época. Como se não bastasse, a chuva era minguada para o cultivo de grãos.

A Babilónia é um impressionante exemplo da capacidade do homem para alcançar grandes
objetivos, utilizando o que quer que estivesse à disposição. Todos os recursos que sustentavam
essa grande cidade foram desenvolvidos pelo homem. Todas as suas riquezas foram por ele
produzidas.

A Babilónia possuía apenas dois recursos naturais — um solo fértil e a água do rio. Numa das
maiores realizações de todos os tempos, os engenheiros da Babilónia desviaram aságuas do rio por
meio de represas e imensos canais de irrigação. Cruzando grandes distâncias através do vale
árido, esses canais despejavam suas águas revigorantes sobre o solo fértil. Isso se coloca entre
as primeiras façanhas da engenharia conhecidas na história. Abundantes colheitas foram a
recompensa por esse sistema de irrigação que o mundo nunca tinha visto antes.

Felizmente, durante sua longa existência, a Babilónia foi governada por sucessivas linhagens
de reis para quem conquistar e pilhar não passavam de situações episódicas. Embora se tivesse
empenhado em muitas guerras, a maioria era de natureza local e na maior parte das vezes buscavam
conter a investida de ambiciosos conquistadores de outras regiões que cobiçavam seus fabulosos
tesouros. Os magníficos governantes da Babilônia ganharam um lugar na história por causa de
sua sabedoria, espírito de iniciativa e justiça. A Babilónia não produziu monarcas pomposos que
ansiassem por conquistar o mundo conhecido para que todas as nações pudessem homenagear seu
egotismo.

Como cidade, a Babilónia não existe mais. Quando essas estimulantes forças humanas que a
construíram e mantiveram por milhares de anos se dissiparam, ela logo se tornou uma ruína
desabitada. Sua localização fica na Ásia, a cerca de seiscentas milhas a leste do canal de Suez,
bem ao norte do golfo Pérsico. Sua latitude é mais ou menos trinta graus acima do Equador,
praticamente a mesma de Yuma, no Arizona. O clima é parecido com o dessa cidade americana,
quente e seco.

Hoje o vale do Eufrates, antes uma populosa região de próspera agricultura, não passa de um
deserto árido batido pelo vento. Uma vegetação rala de arbustos luta para sobreviver contra as
tempestades de areia. Lá se foram os campos férteis, as gigantescas cidades e as grandes
caravanas de ricas mercadorias. Bandos nômades de árabes, levando uma vida difícil com seus
pequenos rebanhos, são seus únicos habitantes. Tem sido assim desde o começo da era cristã.

Colinas de terra semeiam o vale. Durante séculos, os viajantes acostumaram-se a considerá-las
desse modo. A atençãodos arqueólogos foi finalmente despertada devido a pedaços de cerâmica e
de tijolos que começaram a aparecer depois de ocasionais aguaceiros. Expedições financiadas por
museus americanos e europeus foram enviadas ao local para fazer escavações e ver o que podia ser
achado. Pás e picaretas logo provaram que essas colinas eram antigas cidades. Cidades
sepultadas, não haveria talvez melhor expressão para elas.

A Babilónia era um desses achados. Durante algo em torno de vinte séculos, os ventos
espalharam sobre ela a poeira do deserto. Construídas originalmente de tijolos, suas muralhas
muito expostas tinham se desintegrado, caindo mais uma vez por terra. Assim é a Babilónia, a
faustosa cidade, em nossos dias. Um amontoado de sujeira por tanto tempo abandonado que
nenhuma pessoa viva chegou sequer a saber seu nome, até que foi descoberta através da cuidadosa
remoção dos restos seculares de ruas e dos escombros de seus nobres templos e palácios.

Muitos cientistas consideram a civilização babilônica e a de outras cidades no vale como as
mais antigas entre aquelas que possuem um registro definido. Datas positivas assinalam um
recuo de 8.000 anos. Um fato interessante nessa conexão é o meio usado para determinar essas
datas. Soterradas nas ruínas da Babilónia, encontraram-se descrições de um eclipse do sol.
Astrônomos modernos calcularam prontamente a época em que tal eclipse, visível na Babilónia,
ocorreu e então estabeleceram uma conhecida relação entre o calendário deles e o nosso.

Conseguimos portanto provar que há 8.000 anos os sumerianos, que habitaram a Babilónia,
viveram em cidades muradas. Mas só podemos conjeturar sobre quantos séculos antes essas
cidades existiram. Seus habitantes não eram meros bárbaros vivendo dentro de suas muralhas
protetoras. Eram um povo culto e educado. Até aonde pelo menos a história escrita pode chegar,
eles foram os primeiros engenheiros, os primeiros astrônomos, os primeiros matemáticos, os
primeiros financistas e o primeiro povo a ter uma linguagem escrita.

Já fizemos menção aos sistemas de irrigação que transformaram o vale árido num paraíso agrícola. O
que restou desses canais pode ainda ser acompanhado, embora quase todos estejam
completamente cobertos pela areia acumulada. Alguns eram tão grandes que, quando sem água,
uma dúzia de cavalos poderia correr lado a lado sobre o seu leito. Em tamanho, não ficam nada a dever
aos maiores canais do Colorado e de Utah.

Além de irrigarem as terras do vale, os engenheiros babilônicos realizaram um outro projeto de
similar magnitude. Por meio de um sofisticado sistema de drenagem, recuperaram para o cultivo
uma imensa área pantanosa na foz dos rios Tigre e Eufrates.

Heródoto, viajante e historiador grego, visitou a Babilónia em pleno apogeu da cidade e deu-nos a
única descrição que conhecemos feita por um estrangeiro. Seus escritos fornecem um panorama gráfico
da cidade e mencionam alguns dos extraordinários costumes de seu povo, além dos comentários sobre a
notável fertilidade do solo e as abundantes colheitas de trigo e cevada.

A glória da Babilónia desapareceu, mas sua sabedoria foi preservada para nós. Para isso, estamos
em dívida com sua forma de registros. Naqueles distantes dias, o uso do papel ainda não tinha sido
inventado. Em seu lugar, os babilônios gravavam laboriosamente seus escritos sobre tabuinhas de argila
úmida. Em seguida, eram cozidas e tornavam-se uma telha dura. Mediam em geral cerca de seis por
oito e uma polegada de espessura.

Essas tabuinhas de argila, como eram comumente chamadas, tinham um uso tão disseminado quanto
o têm hoje nossas modernas formas de escrita. Os habitantes gravavam sobre as tabuinhas lendas, poesia,
história, transcrições dos decretos reais, as leis da terra, títulos de propriedade, notas promissórias
e até cartas que mensageiros levavam a cidades distantes. Através delas, temos condições de
reconstituir diversos aspectos da vida íntima e pessoal do povo. Uma tabuinha, por exemplo, eviden-
temente saída de um armazém, registra que na data assinalada um determinado cliente trouxe ao
comerciante uma vaca, trocando-a por sete sacas de trigo, três entregues na hora, e as quatro
restantes, reservadas para quando o cliente quisesse apanhá-las.

Conservadas intactas sob os destroços das cidades, os arqueólogos recuperaram bibliotecas inteiras
dessas tabuinhas, centenas de milhares delas.

Uma das mais notáveis maravilhas da Babilónia eram as imensas muralhas que cercavam a
cidade. Os antigos classificam-nas, como a grande pirâmide do Egito, entre “as sete maravilhas
do mundo”. Atribui-se à rainha Semíramis a construção das primeiras muralhas durante os
primórdios da cidade. Modernos escavadores não conseguiram achar qualquer traço das

muralhas originais. Não sabemos mesmo quanto mediam de altura. Segundo menção dos primeiros
escritores, estima-se quetivessem entre cinqüenta e sessenta pés de altura, voltadas para o lado de
fora com seus tijolos queimados e, além disso, protegidas por um profundo fosso de água.

As muralhas mais recentes e mais famosas foram iniciadas cerca de seiscentos anos antes de
Cristo pelo rei Nabopolassar. Era de tal envergadura seu projeto de reconstrução que ele não
viveu o suficiente para ver a obra concluída. Esta foi continuada por seu filho, Nabucodonosor, cujo
nome é bastante familiar na história bíblica.

A altura e a extensão dessas últimas muralhas desafiam a própria credulidade. Autores idôneos
julgam que elas alcançassem a altura de 160 pés, o equivalente a um moderno prédio de
escritórios de quinze andares. Sua extensão total estaria estimada entre nove e onze milhas. Tão
amplo era o topo que uma carruagem de seis cavalos podia ser conduzida sobre ele. Muito pouco
resta agora dessa tremenda estrutura — alguns pedaços das fundações e o fosso. Além das
devastações provocadas pêlos elementos naturais, os árabes completaram a destruição, car-
regando os tijolos para construírem suas próprias casas.

Contra as muralhas da Babilónia marcharam, sucessivamente, os exércitos vitoriosos de quase
todos os triunfadores dessa época de guerras de conquista. Uma hoste de reis assediou Babilónia,
mas sempre em vão. E não se deve considerar levianamente os exércitos desses dias. Historiadores
referem que tais unidades contavam com 10.000 cavaleiros, 25.000 carros de guerra, 1.200
regimentos de soldados a pé, cada regimento reunindo 1.000 homens. Compreende-se que se
precisasse de dois ou três anos de preparação para organizar os materiais de guerra e conseguir
provisões suficientes para os propósitos das expedições.

A Babilônia parecia organizada como uma cidade moderna. Havia ruas e lojas. Vendedores
ambulantes ofereciam suas mercadorias através dos distritos residenciais. Sacerdotes oficiavam cm
magníficos templos. Dentro da cidade havia um encrave cercado para os palácios reais, com
muros tão altos, segundo se diz, como as muralhas que circundavam a própria cidade.

Os babilônios eram hábeis nas artes. Estas incluíam a escultura, a pintura, a tecelagem, a
ourivesaria, a manufatura de armas e os implementos agrícolas. Seus joalheiros criaram objetos
belos e artísticos. Muitas amostras foram recuperadas das sepulturas de seus ricos cidadãos e podem
agora ser vistas nos principais museus do mundo.

Num período realmente remoto em que o restante do mundo estava ainda cortando árvores com
machados de pedra, ou usando na caça e na guerra lanças e flechas com pontas de sílex, os
babilônios já conheciam machados, lanças e flechas com pontas de metal.

Os babilônios eram financistas e homens de negócios talentosos. Até onde podemos saber, foram
os inventores do dinheiro como meio de troca, das notas promissórias e dos títulos de
propriedade escritos.

A Babilónia nunca foi invadida por exércitos hostis até cerca de 540 anos antes do nascimento
de Cristo. Mesmo então suas muralhas não foram tomadas. A história da queda da Babilónia é
mais extraordinária. Ciro, um dos maiores conquistadores daquele período, pretendia atacar a
cidade e esperava vencer suas muralhas inexpugnáveis. Conselheiros de Nabônido, o rei da
Babilónia, persuadiram-no a sair ao encontro de Ciro e dar-lhe combate sem esperar que a cidade
fosse sitiada. Derrotado o exército babilônico, este abandonou a cidade. Conseqüente-mente,
Ciro encontrou os portões abertos e transpô-los sem qualquer resistência.

A partir daí o poder e o prestígio da cidade foram aos poucos minguando, até que, no curso de
algumas centenas de anos, ela se viu finalmente abandonada, entregue à própria sorte, trans-
formada mais uma vez, pêlos ventos e tempestades, na terra deserta sobre a qual sua grandeza
fora originalmente construída. A Babilónia caiu, nunca mais se ergueu, mas nossa civilização tem
grandes dívidas com ela.

Os eões* do tempo cobriram de areia os altivos muros de seus templos, mas a sabedoria da
Babilónia permanece.

* Entes imaginários do gnosticismo.

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