A GLÓRIA DA Babilônia permanece. Através das idades, sua reputação chega até nós como a mais rica
das cidades, e seus tesouros, como fabulosos.
Mas nem sempre tinha sido assim. As riquezas da Babilônia foram o resultado da sabedoria de
seu povo. Eles primeiro tiveram que aprender a se tornarem prósperos.
Quando o bom Rei Sargon voltou à Babilônia, depois de ter derrotado seus inimigos, os
elamitas, viu-se confrontado com uma séria situação. O chanceler real explicou-lhe o que estava
se passando:
— Depois de muitos anos da grande prosperidade trazida a nosso povo, porque Sua Majestade
mandou construir os grandes canais de irrigação e os suntuosos templos para nossos deuses, agora
que tais obras se acham prontas o povo parece incapaz de garantir sua própria sobrevivência.
“Os trabalhadores estão desempregados. Os comerciantes contam com poucos fregueses. Os
fazendeiros não conseguem vender suas colheitas. O povo em geral não tem dinheiro para
comprar comida.”
— Mas onde foi parar todo o ouro que gastei nessas benfeitorias? — perguntou o rei.
— Temo que se encontre no bolso — respondeu o chanceler — de alguns poucos homens ricos de
nossa cidade. Escorreu pelos dedos da maioria das pessoas tão rapidamente quanto o leite das
cabras pelo coador. Agora que o fluxo de ouro cessou, o grosso da população não tem nada para
apresentar dos seus ganhos.
O rei ficou pensativo por algum momento, depois perguntou:
— Por que deveriam tão poucos homens serem capazes de adquirir todo o ouro?
— Porque sabem como fazê-lo — replicou o chanceler. — Não se pode condenar um homem
por ter sabido atrair o êxito. Tampouco se pode com justiça tirar de um homem que construiu
honestamente sua fortuna para dividir com outros que não tiveram tal capacidade.
— Mas por que — insistiu o rei — não deveria todo o povo aprender a acumular riqueza e,
conseqüentemente, tornar a si mesmo rico e próspero?
— Até que seria possível, majestade. Mas quem pode ensinar-lhes? Certamente não os
sacerdotes, já que nada conhecem a respeito de ganhar dinheiro.
— Quem, chanceler, em nossa cidade é o mais bem preparado nessas questões de fazer fortuna?
— inquiriu o rei.
— Eis uma pergunta que já traz embutida a própria resposta, majestade. Quem acumulou a
maior riqueza em toda a Babilônia?
— Muito bem dito, chanceler. Trata-se de Arkad. Ele é o homem mais rico da Babilónia.
Traga-o até o palácio amanhã cedo.
No dia seguinte, como o rei havia determinado, Arkad apresentou-se diante dele lépido e
fagueiro, a despeito de seus setenta anos de idade.
— Arkad — disse o rei —, é verdade que você é o homem mais rico da Babilónia?
— É o que se costuma dizer, majestade, sem que ninguém tenha aparecido para contestá-lo.
— Como se tornou tão rico? — Aproveitando as oportunidades disponíveis a todos os
cidadãos de nossa boa cidade.
— Mas naturalmente começou com alguma coisa…
— Somente com o desejo de ser rico. Além disso, mais nada.
— Arkad — continuou o rei —, nossa cidade encontra-se numa péssima situação, porque
alguns poucos sabem como ganhar dinheiro e, conseqüentemente, monopolizam-no,
enquanto a massa dos cidadãos não sabe guardar uma parte sequer do que recebem.
“É meu desejo que a Babilónia seja a cidade mais rica do mundo. Precisa portanto ser uma
cidade de muitos homens ricos. Assim, temos de ensinar a todas as pessoas como adquirir riqueza.
Diga-me, Arkad, existe algum segredo para isso? Trata-se de algo que possa ser ensinado?”
— Naturalmente, majestade. Tudo o que um homem conhece pode ser ensinado a outros. Os
olhos do rei brilharam.
— Arkad, você acaba de pronunciaras palavras que eu queria ouvir. E se você mesmo se
incumbisse dessa nobre causa? Não gostaria de formar com seus conhecimentos uma escola de
professores, cada um dos quais educaria outros até que tivéssemos um quadro amplo o bastante
para levar essas verdades a todos os súditos honestos de meu reino?
Arkad inclinou-se e disse:
— Sou um humilde servo a suas ordens. Darei de bom grado todo o conhecimento que possuo
pelo aperfeiçoamento de meus semelhantes e pela glória de meu rei. Faça com que seu bom
chanceler me arrume uma turma de cem homens e lhes ensinarei essas sete soluções que
acabaram por resolver todas as minhas questões de dinheiro, quando, talvez, no início, não
houvesse em toda a Babilônia um cidadão mais atrapalhado do que eu.
Duas semanas depois, de acordo com as ordens do rei, os cem escolhidos reuniram-se no grande
saguão do Templo do Saber, sentados em semicírculo, formando fileiras multicoloridas. À frente
deles achava-se Arkad, ocupando um tamborete acima do qual ardia um candeeiro sagrado,
origem do forte e agradável aroma que se espalhava pela sala.
— Veja, o cidadão mais rico da Babilónia — murmurou um estudante, cutucando um vizinho
quando Arkad se levantou. — Não passa de um homem como qualquer um de nós.
— Como um respeitoso súdito de nosso grande rei — começou Arkad —, encontro-me diante
de vocês a serviço dele. Considerando que alguma vez fui um pobre jovem que alimentava o
forte desejo de adquirir ouro e que, nessa busca, acumulou conhecimentos que o capacitaram a
isso, ele determinou que eu viesse até aqui para transmitir a vocês tudo que aprendi.
“Comecei minha fortuna de modo bastante humilde. Não tinha maior vantagem do que
aquela de que todos vocês e qualquer outro cidadão da Babilônia dispõem.
“O primeiro depósito de meu tesouro foi uma bolsa já gasta pelo uso. Eu detestava vê-la
imprestavelmente vazia. Queria que estivesse gorda e repleta, tilintando ao som do ouro. Por
isso, busquei todos os remédios possíveis para conseguir uma bolsa cheia. Achei sete.
“Assim, explicarei aos que se acham reunidos nesta sala as sete soluções para a falta de
dinheiro, que recomendo a todos aqueles que anseiam por bastante ouro. Consagrarei cada um
dos dias da semana a um desses remédios.
“Ouçam atentamente tudo quanto lhes disser. Debatam o assunto comigo. Discutam-no entre
vocês mesmos. Aprendam meticulosamente estas lições, para que também possam plantar em suas
próprias bolsas a semente da riqueza. Primeiro cada um de vocês deverá sabiamente construir a
própria fortuna. Quando tiverem acumulado competência suficiente para isso, estarão aptos a
passar adiante tais verdades.
“Ensinar-lhes-ei meios simples para engordar a própria bolsa. Este é o primeiro degrau que
conduz ao templo da riqueza, aonde ninguém pode chegar se não tiver condições de pôr fir-
memente os pés nesse primeiro degrau.
“Consideremos agora a primeira solução.”
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