Escrito em Fevereiro 24th, 2008 às 5:11 pm por Paulo Páscoa

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À FRENTE DE sua caravana vem orgulhosamente montado Sharru Nada, o mais importante
comerciante da Babilónia. Ele gosta de roupas finas e está usando uma túnica elegante e cara.
Gosta de animais de classe e está montando seu vigoroso garanhão árabe. Quem quer que o
contemplasse dificilmente adivinharia sua avançada idade. E certamente ninguém teria sus-
peitado de que por dentro ele se achava bastante preocupado.

A viagem desde Damasco é longa, e não têm conta as adversidades do deserto. Ele não pensava
nelas. As tribos árabes são ferozes e ávidas por pilhar caravanas ricas. Ele não as temia, pois seus
muitos guardas montados eram uma segura proteção.

O que o enchia de inquietação era o jovem a seu lado, que estava trazendo de Damasco.
Tratava-se de Hadan Gula, o neto de um velho sócio, Arad Gula, a quem se sentia ligado por uma
dívida de gratidão que nunca poderia ser paga. Gostaria de fazer algo pelo rapaz, mas, quanto
mais pensava nisso, mais lhe parecia difícil por causa do próprio jovem.

Vendo os anéis e os brincos do jovem, pensou de si para consigo: “Ele acha que jóias são para
homens, embora tenha o mesmo rosto enérgico do avô. Mas este não usava túnicas tão berrantes.
Procurei, porém, trazê-lo na esperança de ajudá-lo a começar por si mesmo e livrar da ruína o
que seu pai tem feito da herança deles.”

Hadan Gula tirou-o de seus pensamentos.

— Por que trabalha tão arduamente, acompanhando sempre sua caravana em longas viagens?
Nunca arranja tempo para gozar a vida?

— Gozar a vida? — repetiu Sharru Nada, sorrindo. — O que você faria para gozar a vida se
estivesse em meu lugar?

— Se fosse tão rico quanto você, levaria a vida de um príncipe. Nunca montaria um animal para
cruzar o tórrido deserto. Gastaria os siclos tão rapidamente quanto viessem para minha bolsa.
Usaria as mais caras túnicas e as jóias mais raras. Seria uma vida a meu gosto, algo que realmente
valeria a pena.

Os dois riram.

— Seu avô não usava jóias — disse Sharru Nada, pensativo. Depois continuou, brincando: —
Não reservaria tempo algum para trabalhar?

— O trabalho foi feito para escravos — respondeu Hadan Gula.

Sharru Nada mordeu os lábios, mas não fez nenhuma réplica, seguindo em silêncio até que a
trilha os tivesse levado ao declive. Ali freou a montaria e apontou ao longe o vale verdejante.

— Veja, aí se acha o vale. Procure levar mais adiante seus olhos e entreverá, ainda indistintamente,
as muralhas da Babilónia. A torre é o Templo de Bel. Se tiver olhos de lince, perceberá inclusive a
fumaça que sobe do fogo perene instalado em seu topo.

— A Babilônia é assim? Sempre almejei conhecer a mais rica cidade em todo o mundo —
comentou Hadan Gula. — A Babilónia, onde meu avô começou sua fortuna. Quem dera ele ainda
estivesse vivo. Não deveríamos ser tão apressados.

— Por que deveria o espírito dele ficar na terra além do tempo que lhe foi reservado? Você e seu
pai podem muito bem prosseguir as boas coisas que ele fez.

— Ai de mim, nenhum de nós dois possui os talentos de meu avô. Nem papai nem eu
conhecemos seu segredo para atrair os dourados siclos.

Sharru Nada não respondeu, mas, pensativo, afrouxou a rédea e deixou sua montaria descer o
declive na direção do vale. Atrás deles seguia a caravana numa nuvem de poeira avermelhada. Algum
tempo depois alcançavam a estrada real e dobravam ao sul, através das fazendas irrigadas.

Três velhos homens arando um campo despertaram a atenção de Sharru Nada. Pareciam
estranhamente familiares. Que coisa mais ridícula! Ninguém passa quarenta anos depois por um
campo e encontra os mesmos homens arando o terreno. Mas alguma coisa dentro de si dizia que
eram eles. Um, com uma força incerta, manejava o arado. Os outros conduziam com grande
dificuldade os bois, batendo-lhes inutilmente com seus cajados para obrigá-los a continuar puxando.

Quarenta anos atrás tinha invejado esses homens! Com que felicidade teria então trocado de
lugar com eles! Mas que diferença agora! Olhou com orgulho para trás, apreciando a caravana
que o seguia, com seus camelos e burros criteriosamente escolhidos, abarrotados de mercadorias
valiosastrazidas de Damasco. E tudo isso era apenas uma parte de todos os seus bens.

Ele apontou para os homens que trabalhavam a terra e disse:

— Continuam arando o mesmo terreno onde se encontravam há quarenta anos.

— E o que parece, mas por que acha que são os mesmos?

— Eu os vi ali uma vez — respondeu Sharru Nada.

As recordações passaram como um raio por sua mente. Por que não podia enterrar o passado e
viver no presente? E então viu, como numa imagem, o rosto sorridente de Arad Gula. A barreira
entre ele mesmo e o cínico jovem a seu lado dissolveu-se.

Mas como podia ajudar um jovem enfatuado como este, com suas idéias de perdulário e as mãos
cheias de jóias? Podia oferecer trabalho à vontade para homens com boa disposição, mas não para
aqueles que se presumiam superiores demais para exercerem um determinado ofício. Entretanto,
devia a Arad Gula a obrigação de fazer realmente alguma coisa, não uma tentativa sem
entusiasmo. Ele e Arad Gula nunca tinham agido desse modo, não eram dessa espécie de homens.

De repente veio-lhe à cabeça um plano. Havia objeções. Tinha que levar em conta sua própria
família e sua posição. Seria uma coisa cruel e agressiva. Homem de decisões rápidas, pôs de lado as
objeções e resolveu agir.

— Estaria interessado em saber como seu conceituado avô e eu mesmo formamos uma
sociedade que se mostrou bastante lucrativa? — perguntou ele.

— Por que não me conta só como conseguiu os dourados siclos? É tudo que preciso saber —
aparou o jovem. Sharru Nada ignorou a resposta e continuou:

— Vamos começar por esses homens que vimos trabalhando a terra. Eu podia ter então a sua
idade. Quando a coluna em que me encontrava se aproximou, o velho e bom Megiddo, o fazendeiro,
zombou da maneira desajeitada com que eles usavam os instrumentos. Megiddo estava
acorrentado junto a mim. “Olhe para esses companheiros preguiçosos”, protestou ele. “O que
maneja o arado não faz o menor esforço para abrir sulcos profundos, nem os batedores conseguem
manter os bois na linha certa. Como podem esperar uma boa colheita arando de tal forma?”

— Disse que Megiddo estava acorrentado a você? — perguntou Hadan Gula, surpreso.

— Sim, com argolas de bronze em volta do pescoço e um pedaço de pesada corrente entre nós.
A seu lado achava-se Zabado, o ladrão de ovelhas. Tinha-o conhecido em Harroun. No final,
vinha um homem a quem chamávamos de Pirata, pois não nos dissera seu nome. Pensamos tratar-
se de um marujo, porque trazia no peito uma tatuagem de serpentes entrelaçadas à moda do mar.
A coluna era assim constituída para que os homens andassem de quatro em quatro.

— Você estava acorrentado como um escravo? — perguntou Hadan Gula, sem acreditar.

— Seu avô não lhe contou que eu já fui um escravo?

— Ele sempre falou sobre você, mas nunca insinuou nada a esse respeito.

— Ele era um homem a quem se podia confiar os mais íntimos segredos. Creio que também posso
confiar em você, não é mesmo? — Sharru Nada olhou-o diretamente nos olhos.

—Você pode contar com o meu silêncio, mas estou perplexo. Conte-me como chegou a ser um escravo.
Sharru Nada deu de ombros.

— Qualquer homem pode acordar numa bela manhã como um escravo. Foi uma casa de jogo e o
excesso de bebida que me trouxeram tal desgraça. Fui vítima das imprudências de meuirmão. Numa
briga, ele matou seu amigo de copo. Meu pai me entregou à viúva, desesperado para proteger meu
irmão contra o braço da lei. Como depois ele não tivesse conseguido dinheiro suficiente para libertar-
me, a mulher, raivosa, me vendeu para um mercador de escravos.

— Que vergonha e injustiça! — protestou Hadan Gula. — Mas, diga-me, como conseguiu
ganhar a liberdade?

— Calma, chegaremos lá. Ouça primeiro a história. Quando passamos, esses homens que
estavam trabalhando a terra zombaram de nós. Um deles tirou o chapéu rasgado da cabeça e fez
uma mesura, quase gritando: “Bem-vindos à Babilónia, hóspedes do rei. Ele os espera nas
muralhas da cidade, onde o banquete é farto: tijolos de lama e sopa de cebolas.” E todos eles riram
ruidosamente.

“Pirata encolerizou-se e xingou-os. ‘Que querem dizer com isso, que o rei nos espera nas
muralhas?’, perguntei-lhe.

” ‘Que vamos para as muralhas da cidade carregar tijolos até que nossas costas se quebrem.
Talvez eles o surrem até a morte antes que os próprios tijolos acabem com você. Mas eu não
deixarei que me batam. Eu os matarei.’

“Megiddo tomou a palavra: ‘Não faz sentido para mim a idéia de amos batendo em escravos
diligentes, dispostos ao trabalho, até a morte. Os amos gostam de bons escravos e tratam-nos bem.’

” ‘Quem quer trabalhar pesado?’, comentou Zabado. ‘Esses homens aí curvados ao arado são
sujeitinhos espertos. Não estão quebrando as próprias costas. Só fazem de conta que estão dando
duro.’

” ‘Você não prospera usando de malandragem’, protestou Megiddo. ‘Se conseguir lavrar um
hectare, terá sido um bom dia de trabalho, e o amo reconhece isso. Mas, se lavrar apenas a
metade, isso prova que fez corpo mole no serviço. Eu não faço hora. Gosto de trabalhar e gosto de
fazer um bom trabalho, pois o trabalho é o melhor amigo que já conheci. Ele me deu todas as boas
coisas que já tive — minha fazenda, meu gado leiteiro, minhas colheitas, tudo.’

” ‘Vejam só quem fala, e onde estão essas boas coisas agora?’, zombou Zabado. ‘Imagino ser
muito melhor continuar vivo e arranjar-se sem trabalho. Veja o meu exemplo. Se formos vendidos para
perder o couro nas muralhas, serei destinado ao transporte de sacos d’água ou algum outro trabalho
fácil, enquanto você, que gosta de pegar no pesado, estará quebrando as costas de tanto carregar
tijolos.’ Com um riso idiota, ficou em silêncio de novo.

“O terror apoderou-se de mim naquela noite. Não pude conciliar o sono. Aproximei-me da
corrente mestra e, quando os outros dormiam, atraí a atenção de Godoso, que era o primeiro a
ficar de vigia. Ele era um daqueles bandidos árabes, espécie de tratante que, além de roubar o
dinheiro da vítima, não hesita igualmente em cortar-lhe a garganta.

” ‘Diga-me, Godoso’, sussurrei, ‘quando chegarmos à Babilônia, seremos vendidos para
trabalhar nas muralhas?’

” ‘Por que quer saber?’, perguntou ele, cautelosamente.

” ‘Mas não está vendo logo!?’, insisti. ‘Sou jovem. Quero viver. Não quero trabalhar nem ser
espancado até a morte nas muralhas. Tenho alguma chance de encontrar um bom amo?’

“Ele sussurrou de volta: ‘Vou lhe contar uma coisa. Você é um bom camarada, não perturba
Godoso. Estive muitas vezes no mercado de escravos. Agora, ouça. Quando os compradores
aparecerem, diga-lhes que é um bom trabalhador e que gosta de trabalhar muito para um bom
amo. Faça com que eles queiram comprá-lo. Do contrário, já no outro dia estará carregando tijolos.
Dando um duro dos diabos.’

“Depois que ele se afastou, deitei-me na areia quente, olhando as estrelas e pensando em trabalho.
Megiddo teimara que este era o seu melhor amigo; muito me surpreenderia se eu também viesse
a ter a mesma opinião. Certamente teria, se o trabalho me livrasse de tudo aquilo.

“Quando Megiddo acordou, contei-lhe baixinho minhas boas novas. Era nosso único raio de
esperança quando nos pusemos em marcha para a Babilônia. No final da tarde aproximamo-nos
das muralhas e pudemos ver as fileiras de homens, como formigas negras, subindo e descendo
ladeiras íngremes. De mais perto ainda, ficamos impressionados com os milhares de homens
trabalhando; alguns estavam cavando no fosso, outros confundiam-se com a sujeira dos tijolos de
lama. O maior número carregava os tijolos em imensos cestos através das trilhas escarpadas até os
pedreiros.*

“Inspetores praguejavam contra os retardatários e desciam o chicote de couro de boi nas costas
daqueles que não conseguiam ficar em linha. Víamos os pobres companheiros vacilarem esgotados e
caírem sob o peso de seus cestos, incapazes de tornarem a levantar-se. Se a chicotada alcançava-
lhes os pés, eles eram arrastados para o lado dos caminhos e deixados ali, contorcendo-se de dor.

Logo seriam dragados para baixo, a fim de juntar-se a outros corpos jogados ao lado da estrada,
esperando uma sepultura ímpia. Quando vi o pavoroso espetáculo, tremi da cabeça aos pés.
Então era isso o que esperava o filho de meu pai se não fosse vendido no mercado.

“Godoso tinha falado com razão. Fomos conduzidos através dos portões da cidade até a prisão
dos escravos e na manhã seguinte levados para a praça do mercado. Ali o resto dos homens

* Os famosos trabalhos da antiga Babilónia — suas muralhas, templos, jardins suspensos e grandes canais — foram
realizados pela mão escrava, principalmente entre os prisioneiros de guerra, o que explica o tratamento desumano que
receberam. Essa força de trabalho incluía igualmente muitos cidadãos da Babilónia e de suas províncias que tinham
sido vendidos como escravos por causa de crimes ou problemas financeiros. Era um costume corrente que os próprios
homens oferecessem a si mesmos, esposas e filhos como caução relativa a dívidas, julgamentos legais ou outras
obrigações. No caso de não-cumprimento, as pessoas entregues como garantia eram vendidas como escravas.

achava-se petrificado de medo, e só o chicote de nosso guarda pôde convencê-los a adiantar-se
para serem examinados pêlos compradores. Megiddo e eu mesmo falávamos avidamente com
qualquer homem a quem se nos permitia dirigirmo-nos.

“O negociante de escravos chamou soldados da guarda real, que algemaram Pirata e
brutalmente o açoitaram quando ele protestou. Assim que o carregaram dali, senti uma grande
pena dele.

“Megiddo percebeu que logo seríamos separados. Quando nenhum comprador se achava
por perto, ele me falava com veemência para deixar marcado em minha mente como o trabalho
seria valioso para mim no futuro: ‘Alguns homens o odeiam. Fazem dele um inimigo. É melhor
tratá-lo como um amigo, aprender a gostar dele. Não se preocupe com que seja árduo. Se pensar
nisso como uma casa que você constrói, então quem se importa que as vigas sejam pesadas ou
que se ache distante o lugar aonde tem de apanhar água para o estuque? Prometa-me, rapaz, que
se tiver um amo vai trabalhar para ele o mais arduamente que puder. Se ele não apreciar tudo
quanto você faz, não se preocupe. Lembre-se, o trabalho bem-feito traz satisfação a quem quer
que o tenha realizado e torna o homem melhor.’ Ele se calou quando um fazendeiro troncudo
aproximou-se do cercado e nos olhou como quem examina uma mercadoria.

“Megiddo interrogou-o sobre sua fazenda e colheitas, logo convencendo o homem de que
seria de grande utilidade para ele. Depois de uma violenta negociação com o vendedorde
escravos, o fazendeiro tirou de sob a túnica uma gorda bolsa, e logo Megiddo seguia o novo amo,
saindo do campo de minha visão.

“Alguns outros homens foram vendidos durante a manhã. Ao meio-dia Godoso confiou-me que o
vendedor estava impaciente e que não ficaria ali mais uma noite, antes transferiria todos os que
tivessem restado, ao pôr-do-sol, ao comprador do rei. Eu estava ficando desesperado, quando
um homem gordo, de aparência afável, aproximou-se de onde nos encontrávamos e perguntou se
havia ali entre nós algum padeiro.

“Cheguei para perto dele, dizendo: ‘Por que deveria um bom padeiro como você procurar outro
padeiro de talentos inferiores? Não seria mais fácil ensinar a um homem decidido como eu os seus
preciosos talentos? Olhe para mim, sou jovem, forte e amante do trabalho. Dê-me uma chance, e
farei o impossível para ganhar ouro e prata para o seu bolso.’

“Ele ficou impressionado com minha boa disposição e começou a negociar com o vendedor, que
não tinha reparado em mim desde que me comprara, mas que agora gabava com eloqüência minhas
habilidades, saúde e boa constituição. Senti-me como um boi gordo sendo vendido a um
açougueiro. Por fim, para minha alegria, o negócio foi fechado. Saí dali seguindo meu novo mestre,
achando que era o homem de mais sorte na Babilónia.

“O novo lar era muito a meu gosto. Nana-naid, meu amo, ensinou-me a moer a cevada na
pedra redonda que ficava no pátio, a pôr e acender a lenha no forno e a reduzir a um pó
finíssimo a farinha de gergelim para os bolinhos de mel. Eu tinha um leito no barracão onde eram
guardados os cereais. Uma velha escrava que servia como governanta, Swasti, alimentava-me
convenientemente e estava satisfeita com minha boa vontade em ajudá-la nas tarefas mais duras.

“Ali estava a chance há muito esperada de mostrar-me útil a meu amo e, quisessem os deuses,
de encontrar um meio para ganhar a liberdade.

“Pedi a Nana-naid que me ensinasse a fazer a massa do pão e assá-lo. Foi o que ele fez, muito
animado com o meu interesse. Mais tarde, quando já dominava esse terreno, aprendi a preparar e

assar os bolinhos de mel. A possibilidade de ócio encantou meu dono, mas Swasti balançava a
cabeça, desaprovando. ‘Não trabalhar é uma coisa ruim para qualquer homem’, declarou ela.

“Achei que já era tempo de pensar numa maneira de começar a obter dinheiro para comprar minha
liberdade. Como a feitura dos pães encerrava-se ao meio-dia, julguei poder contar com a
aquiescência de Nana-naid se eu encontrasse uma ocupação lucrativa para a parte da tarde e
que ele não se importaria em dividir comigo os meus próprios ganhos. Tive a seguinte idéia: por
que não assar uma quantidade maior de bolinhos de mel e vendê-los a homens famintos nas ruas
da cidade?

“Apresentei o plano a Nana-naid, dizendo-lhe: ‘Se eu puder usar minhas tardes, depois que os
pães estiverem assados, a fim de ganhar dinheiro para você, não lhe bastará senão dividir os
ganhos comigo, para que eu possa ter o meu próprio dinheiro e gastá-lo com essas coisas que todo
homem deseja e precisa.’

” ‘Mais do que justo’, concordou ele. Quando lhe falei sobre o plano de vender nas ruas nossos
bolinhos de mel, ele logo se entusiasmou com a idéia. ‘Eis o que faremos’, sugeriu. ‘Você venderá
cada dois bolinhos por uma moeda de cobre. Metade das moedas ficará comigo para pagar pela
farinha, o mel e a lenha para o forno. Dividiremos o que sobrar meio a meio.’

“Fiquei muito feliz com seu generoso oferecimento, que me permitiria guardar para mim um
quarto das vendas. Naquela noite trabalhei até tarde para fazer uma bandeja onde empilhar os
bolinhos. Nana-naid me deu uma de suas túnicas usadas, para me mostrar apresentável, e Swasti
ajudou-me a remendá-la e lavá-la.

“No dia seguinte assei uma quantidade extra de bolinhos de mel. Ficaram tostadinhos e
tentadores sobre a bandeja, e percorri as ruas apregoando minha mercadoria. No princípio,
ninguém pareceu interessado, e isso me deu um grande desânimo. Prossegui, e, já pelo final da
tarde, à medida que as pessoas ficavam esfomeadas, os bolinhos começaram a sair, e logo minha
bandeja ficou vazia.

“Nana-naid revelou-se contente com o meu sucesso e de bom grado pagou minha parte. Eu
exultava com minhas moedas de prata. Megiddo tinha razão quando afirmava que um amo
apreciava o bom trabalho de seus escravos. Nessa noite, eu estava tão exultante com meu êxito
que quase não pude conciliar o sono, tentando imaginar a soma total dos ganhos em um ano e de
quantos anos precisaria para comprar minha liberdade.

“Como saía todos os dias com minha bandeja repleta de bolinhos, logo arranjei fregueses certos.
Um destes não era outro senão seu avô, Arad Gula. Ele era um comerciante de tapetes e vendia
para as donas de casa, indo de uma ponta à outra da cidade, acompanhado por um burro
abarrotado de tapetes e um escravo negro para desdobrá-los. Ele comprava dois bolinhos para si
mesmo e dois outros para o escravo, sempre se detendo para conversar comigo enquanto os comia.

“Seu avô disse-me um dia uma coisa que nunca mais esquecerei. ‘Gosto dos seus bolinhos, meu
jovem, mas muito mais da maneira refinada com que você os oferece. Esse espírito de iniciativa
pode levá-lo longe na estrada do sucesso.’

“Mas comopode entender, Hadan Gula, o que tais palavras de encorajamento podem significar
para um escravo ainda jovem, sozinho numa grande cidade, lutando com tudo que tinha em si
para encontrar um modo de livrar-se das humilhações?

“A medida que os meses passavam, eu ia economizando cada vez mais os meus trocados. Meu
alforje preso ao cinto ia começando a ganhar um peso bem gostoso. O trabalho estava provando ser
meu melhor amigo, exatamente como dissera Megiddo. Eu estava feliz, mas Swasti mostrava-se
preocupada: ‘Temo que nosso amo esteja dissipando um tempo precioso nas mesas de jogo’, disse
ela.

“Não coube em mim de contente quando um dia cruzei com meu amigo Megiddo na rua. Ele
conduzia ao mercado três burros carregados de verduras. ‘Eu estou indo muito bem’, disse ele.
‘Meu amo aprecia tanto o meu bom trabalho que agora sou capataz. Como vê, ele me confia os
negócios no mercado e inclusive mandou buscar minha família. O trabalho está me ajudando a
recuperar-me dos meus grandes problemas. Algum dia me ajudará a comprar minha liberdade e
ter de volta minha fazenda.’

“O tempo foi passando, e Nana-naid tornou-se cada vez mais ansioso pelo meu retorno após a
venda dos bolinhos. Ele ficava me esperando e avidamente contava e dividia nosso dinheiro.
Chegou a instar comigo para que visitasse praças mais distantes e aumentasse as vendas.

“Frequentemente, eu ia além dos portões da cidade para atender os inspetores dos escravos que
construíam as muralhas. Eu odiava aquelas desagradáveis visões, mas achei entre os inspetores
fregueses liberais. Um dia fiquei surpreso ao ver Zabado esperando numa fila para encher o cesto
com tijolos. Ele estava pálido e alquebrado, as costas cobertas de chagas e lanhaduras devido ao
chicote dos inspetores. Tive pena dele e estendi-lhe um bolinho que ele devorou imediatamente
como um animal faminto. Percebendo seu olhar guloso, corri antes que me arrebatasse a
bandeja.

” ‘Por que trabalha tão arduamente?’, perguntou-me um dia Arad Gula. Quase a mesma
pergunta que você me fez hoje, lembra-se? Contei-lhe o que Megiddo dissera sobre o trabalhoe
como este estava provando ser meu melhor amigo. Mostrei-lhe com orgulho meu alforje repleto de
moedas, acrescentando que economizava a fim de comprar minha liberdade.

” ‘Quando estiver livre, o que fará?’, quis saber seu avô.

” ‘Bem’, respondi, ‘tenciono tornar-me comerciante.’

“Foi aí que ele me confidenciou uma coisa de que eu nunca tinha suspeitado. ‘Aposto que não
sabe que sou também um escravo. Formei uma sociedade com o meu amo.’ ”

— Alto lá! — interveio Hadan Gula. — Não ouvirei mentiras que ultrajem meu avô. Ele não foi
escravo. — Seus olhos faiscavam de raiva.

Sharru Nada manteve-se calmo.

— Respeito seu avô por ter superado o infortúnio, tornando-se um cidadão proeminente em
Damasco. Acha que você, seu neto, é feito do mesmo molde? É homem suficiente para encarar a
verdade ou prefere viver alimentando falsas ilusões?

Hadan Gula endireitou-se na sela. Numa voz sufocada por profunda emoção, replicou:

— Meu avô foi estimado por todos. Seus dons eram incontáveis. Numa época de fome, foi seu
ouro que comprou cereais no Egito, foi sua caravana que os trouxe para Damasco, dis-
tribuindo-os para que as pessoas não morressem de inanição. Agora você está me dizendo que
ele não passava de um desprezível escravo na Babilônia.

— Tivesse permanecido como escravo na Babilónia, teria muito bem podido ser desprezível.
Quando, porém, através de seus próprios esforços, tornou-se um grande homem em Damasco, os
deuses realmente condoeram-se de seus infortúnios e dedicaram-lhe todo o respeito celeste.

“Depois de ter me contado que era um escravo”, continuou Sharru Nada, “explicou como
estivera ansioso para ganhar sua liberdade. Agora que tinha o dinheiro para comprá-la estava
muito confuso quanto ao que devia fazer. Havia muito não fazia boas vendas e temia deixar a
proteção de seu amo.

“Condenei sua indecisão: ‘Não fique grudado por muito tempo a seu amo. Experimente
novamente a sensação de ser um homem livre. Aja e obtenha êxito como um homem livre! Decida
o que deseja realizar, e então o trabalho o ajudará a fazê-lo!’ Ele seguiu seu caminho, dizendo
estar contente por eu tê-lo censurado por sua covardia.*

“Um dia fui novamente além dos portões da cidade e fiquei surpreso ao encontrar uma multidão
compacta ali reunida. Tentei informar-me a respeito, e um homem me disse: ‘Então não soube?
Um escravo fugido que matou um dos guardas do rei foi trazido para a justiça e ainda hoje será
açoitado até a morte por seu crime. O próprio rei estará aqui em pessoa.’

“O ajuntamento era tão cerrado em volta do pelourinho que temi aproximar-me sem que minha
bandeja de bolinhos de mel não fosse atirada para o alto. Subi por isso a um recanto em obras da
muralha de onde podia ver acima das cabeças das pessoas. Pude ter dali uma ótima visão do
próprio Nabucodonosor conduzindo seu carro de ouro. Nunca tinha contemplado tanta grandeza,
túnicas tão magníficas e cortinas de pano dourado e veludo.

“Eu não podia ver o castigo, embora conseguisse ouvir os gritos lancinantes do pobre escravo.
Admirava-me que alguém tão nobre como o nosso magnífico rei tivesse condições de apreciar

*Os costumes dos escravos na antiga Babilónia, ainda que possam parecer inconsistentes para nós, eram rigorosamente
regulados pela lei. Por exemplo, um escravo podia ter sua própria propriedade e até outros escravos sobre os quais seu
amo não tinha qualquer direito. Escravos casavam-se livremente com não-escravos. Filhos de mães livres eram livres.
A maioria dos comerciantes da cidade eram escravos. Muitos destes formavam sociedade com seus amos e eram ricos
de pleno direito.

aquele sofrimento, mas, quando vi que ele estava rindo e brincando com os cortesãos, percebi que
ele era cruel e compreendi por que tarefas tão desumanas eram exigidas dos escravos que
construíam as muralhas.

“Depois que o escravo morreu, seu corpo foi preso a um poste de madeira por uma corda ligada a
um de seus pés para que todos pudessem ver. Como a multidão começava a desfazer-se, cheguei
mais perto. Sobre o peito cabeludo do supliciado reconheci a tatuagem das duas serpentes
entrelaçadas. Era Pirata.

“Na próxima vez que encontrei Arad Gula, ele era um homem mudado. Cumprimentou-me
cheio de entusiasmo: ‘Veja, o escravo que você conheceu é agora um homem livre. Haviamágica
em suas palavras. Minhas vendas e meus lucros cresceram. Minha esposa não cabe em si de
contente. Ela era uma mulher livre, sobrinha de meu amo. Ela deseja bastante que nos mudemos
para outra cidade onde ninguém saiba que já fui um escravo. Desse modo, nossos filhos estarão
livres de censuras devido ao infortúnio do pai. O trabalho se tornou meu melhor esteio.
Capacitou-me a recuperar a confiança e minha habilidade para vender.’

“Fiquei satisfeito em ter podido pagar-lhe, ainda que de modo tão simples, o encorajamento
que ele tinha me dado.

“Uma noite, Swasti me procurou profundamente abalada: ‘Seu amo está com problemas.
Temo por ele. Há alguns meses vem perdendo grandes somas nas mesas de jogo. Não está
pagando ao fazendeiro pêlos cereais nem pelo mel. Não está pagando ao emprestador de dinheiro.
Eles estão revoltados e ameaçam-no.’

” ‘Por que devemos nos preocupar com suas loucuras? Não somos os seus responsáveis’,
respondi sem pensar.

” ‘Jovem desmiolado, não está entendendo? Ele deu ao emprestador de dinheiro seu título de
propriedade para garantir o empréstimo. Segundo a lei, o homem pode reclamá-lo e vendê-lo.
Não sei o que fazer. Ele é um bom amo. Por quê? Por que tais problemas vieram cair sobre ele?’
“Os temores de Swasti não eram sem fundamento. Enquanto me achava assando o pão na manhã
seguinte, o emprestador de dinheiro voltou com um homem chamado Sasi. Esse homem me
examinou e disse que eu servia.

“O emprestador de dinheiro não quis esperar o retorno de meu amo, mas incumbiu Swasti de
dizer-lhe que tinha me levado. Sem levar comigo senão a túnica que estava vestindo e o meu
alforje com as moedas de cobre preso ao cinto, apressaram-me a deixar o local, os pães ainda
assando no forno.

“Fora arrancado às minhas mais queridas esperanças como o furacão desenraiza a árvore da
floresta, atirando-a ao mar encapelado. Novamente uma casa de jogo e bebidas alcoólicas cau-
savam minha desgraça.

“Sasi era um homem rude e grosseiro. Quando cruzava comigo a cidade, falei-lhe sobre os bons
serviços que tinha prestado a Nana-naid e disse-lhe que ele poderia esperar o mesmo tratamento.
Sua resposta foi totalmente desencorajadora.

” ‘Não gosto deste trabalho. Meu amo não gosta dele. O rei determinou que ele me destinasse
à construção de uma seção do Grande Canal. O amo me pediu que comprasse mais escravos,
trabalhasse arduamente e acabasse rápido com a obra. Ora, como pode algum homem acabar
rapidamente uma obra grande como aquela?’

“Imagine um deserto sem árvore alguma, apenas pequenos arbustos e um sol queimando com tal
fúria que a água em nossos barris já não prestava, de tão quente, para matar nossa sede. Imagine
agora filas de homens descendo aos profundos buracos escavados e dali trazendo pesados cestos de
areia fofa através de caminhos poeirentos, da manhã até a noite. Imagine a comida servida em
gamelas onde todos comiam juntos, como porcos. Não tínhamos tendas nem palha para as
camas. Foi essa a situação em que me achei. Enterrei meu alforje num lugar marcado, meio
descrente de que no futuro viesse a desencavá-lo.

“Nos primeiros tempos trabalhei com boa vontade, mas, à medida que os meses se arrastavam,
senti meu ânimo fraquejar. Então a febre tomou conta do meu corpo exausto. Perdi o apetite e
mal podia levar à boca pedaços de carneiro e verduras. A noite via-me completamente vencido pela
insônia.

“Em minha desgraça perguntava-me se o plano de Zabado não era mesmo o melhor, fazer
corpo mole para não condenar o próprio corpo ao esmorecimento. Depois lembrei-me da última
visão que tive dele e convenci-me de que o velho camarada estava errado.

“Meus pensamentos voltaram-se para Pirata e toda aquela amargura, e me perguntei se
também podia ser justo brigar e matar. A recordação de seu corpo ensangüentado me mostrou
que seu plano não tinha a menor serventia.

“Lembrei-me então da última vez em que vi Megiddo. Suas mãos mostravam calos imensos
devido a trabalho árduo, mas seu coração era leve e havia contentamento em seu rosto. Seu plano
era o melhor.

“Mas eu tinha tanta disposição para o trabalho quanto Megiddo; ele podia não ter trabalhado
tão duro quanto eu. Por que o meu trabalho não me trouxe felicidade e sucesso? Era o trabalho
que trazia felicidade a Megiddo ou isso acontecia devido à intervenção dos deuses? Estaria
escrito que eu devia trabalhar a vida inteira sem a satisfação de meus desejos, sem felicidade ou
sucesso? Todas essas questões misturavam-se em minha cabeça, e eu não encontrava uma resposta
sequer. Realmente, eu me achava lamentavelmente confuso.

“Vários dias depois, quando já parecia que me encontrava no limite de minha resistência, ainda
sem atinar com qualquer solução, Sasi me procurou. Um mensageiro veio em nome de meu
mestre buscar-me para me levar de volta à Babilónia. Desenterrei meu precioso alforje, enrolei-
me nos restos andrajosos de minha túnica e segui caminho, montado atrás do mensageiro.

“À medida que progredíamos, os mesmos pensamentos de um furacão atirando-me de um lado
para outro assaltaram meu cérebro nervoso. Eu parecia estar vivendo as misteriosas palavras de
uma canção de Harroun, minha cidade natal:

Atacando um homem como um redemoinho,

Conduzindo-o como uma tempestade,

Cujo curso ninguém pode seguir,

Cujo destino ninguém pode prever.

“Estava destinado a ser sempre punido em razão de algo que desconhecia? Que novas
desgraças e decepções me aguardavam?

“Quando entramos no pátio da casa de meu mestre, imagine minha surpresa quando vi Arad
Gula me esperando. Ele me ajudou a apear e me abraçou como a um irmão há muito desaparecido.

“Quando nos pusemos a andar em direção ao interior da casa, quis ir atrás dele como um
escravo deve seguir o amo, mas ele não me permitiu fazê-lo. Passou o braço pelo meu ombro,
dizendo: ‘Procurei-o por toda parte. Quando já me dava por vencido, encontrei Swasti, que me
falou sobre o emprestador de dinheiro, que me conduziu até seu nobre dono. As negociações
foram difíceis, por causa dele, que ainda me fez pagar um preço exorbitante, mas você merecia
todos os sacrifícios. Sua filosofia e iniciativa foram minha inspiração para esse novo sucesso.’

” ‘A filosofia de Megiddo, não minha’, atalhei.

” ‘A filosofia de Megiddo e sua. Graças a ambos, estamos indo a Damasco, e eu preciso de você
como meu sócio. Veja’, exclamou ele, ‘em um momento você será um homem livre!’ Dizendo isso,
retirou de sob a túnica a tabuinha de argila onde estava gravado meu título de propriedade.
Levantou-a acima da cabeça e arremessou-a contra o chão de pedras. Com satisfação, esmagou
com os pés os fragmentos até que se reduzissem a pó.

“Lágrimas de gratidão encheram-me os olhos. Eu sabia que era o homem de mais sorte na
Babilónia.

“Como vê, o trabalho, no tempo de minhas maiores desgraças, provou ser meu melhor amigo.
Minha disposição para o serviço capacitou-me a escapar de ser vendido para fazer parte das
turmas de escravos nas muralhas. Isso também impressionou seu avô, que me escolheu como seu
sócio.”

— O trabalho é a chave secreta de meu avô para os seus siclos de ouro? — perguntou Hadan
Gula.

— Era a única chave que ele possuía quando o conheci — replicou Sharru Nada. — Seu avô
adorava o trabalho. Os deuses apreciaram seus esforços e o recompensaram com liberalidade.

— Começo a ver — disse Hadan Gula, pensativo. — O trabalho atraiu seus muitos amigos, que
admiraram sua diligência e o sucesso que isso trouxe. O trabalho trouxe-lhe o respeito de que tanto
gozou em Damasco. O trabalho trouxe-lhe todas essas coisas que aprovei. E eu que achava que o
trabalho somente convinha a escravos.

— A vida é repleta de prazeres que os homens podem gozar — comentou Sharru Nada. —
Cada um deles tem o seu lugar. Fico contente com que o trabalho não esteja restrito a escravos.
Fosse assim, eu me veria privado de meu maior prazer. Não há nada que me dê uma soma maior de
satisfação do que o trabalho.

Sharru Nada e Hadan Gula seguiram cobertos pelas sombras das muralhas torreadas até os
maciços portões de bronze da Babilónia. À aproximação deles, os guardas ali postados tiveram a
atenção despertada e respeitosamente saudaram um honrado cidadão. Com a cabeça erguida,
Sharru Nada passou com sua grande caravana pêlos portões e subiu as ruas da cidade.

— Sempre aspirei a tornar-me um homem como meu avô — confidenciou-lhe Hadan Gula.—
Nunca tinha percebido o tipo de homem que ele foi. Você me mostrou isso. Agora, que
compreendo, admiro-o ainda mais e sinto-me muito mais determinado a ser como ele. Temo que
nunca lhe poderei pagar por ter me dado a verdadeira chave do sucesso dele. Daqui por diante
usarei essa chave. Quero começar de maneira humilde, como ele, que convém a minha
verdadeira posição muito mais do que jóias e roupas finas.

Assim dizendo, Hadan Gula arrancou as bugigangas que lhe pendiam das orelhas e os anéis
que lhe enfeitavam os dedos da mão. Freando o cavalo, foi ficando um pouco para trás, até que
voltou a seguir em frente, cheio de respeito, mas atrás do líder da caravana.

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