Escrito em Fevereiro 24th, 2008 às 5:42 pm por Paulo Páscoa

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CINQÜENTA moedas de ouro! Nunca antes na vida tinha Rodan, o fabricante de lanças,
carregado uma quantia dessas em seu alforje de couro. Descia a estrada real cheio de contenta-
mento, depois de ter deixado o palácio do soberano mais liberal do mundo. As moedas tilintavam
agradavelmente à medida que o alforje preso ao cinturão balançava a cada passo— a música mais
divina que já tinha ouvido.

Cinqüenta moedas de ouro! Tudo seu! Mal podia acreditar em sua boa sorte. Quanto poder
nesses discos tilintantes! Podia comprar o que bem entendesse—uma grande casa, terras, gado,
camelos, cavalos, carruagens, o que quer que desejasse.

Que uso devia fazer disso? Nessa noite, enquanto entrava na rua onde ficava a casa da irmã, só
conseguia pensar nessas cintilantes e pesadas moedas de ouro que lhe pertenciam.

Ainda se recordava daquela noite, poucos dias antes, quando um perplexo Rodan entrou na loja
de Mathon, o emprestador de dinheiro e comerciante de jóias e objetos raros. Sem sequer olharà
direita ou à esquerda para os artigos multicores cuidadosamente dispostos, ele atravessou o salão,
dirigindo-se imediatamente para os fundos. Ali encontrou o amável Mathon refestelado sobre um
tapete, enquanto um escravo negro servia-lhe finas iguarias.

— Venho em busca de seus conselhos, pois me encontro desorientado. — Rodan mantinha-se
impassível, de pé, o peito cabeludo aparecendo pela abertura do casaco de couro.

O rosto fino e descorado de Mathon sorriu, esboçando uma amável saudação.

— Que imprudências andou cometendo para que se visse obrigado a procurar um
emprestador de dinheiro? Deu azar em alguma mesa de jogo? Ou se deixou enredar nas malhas de
alguma dama elegante? Conheço-o há muitos anos e não me lembro de já ter sido procurado por
você para tirá-lo de uma enrascada.

— Não, não se trata disso. Não estou precisando de dinheiro. Estou, ao contrário, à procura de
um conselho sensato.

— Mas ouçam isso! O que está dizendo? Ninguém recorre ao emprestador de dinheiro para
aconselhar-se. Meus ouvidos devem estar me pregando uma peça.

— Pois é isso mesmo!

— Como pode? Rodan, o fabricante de lanças, demonstra mais astúcia do que todos os
outros, pois vem à presença de Mathon não em busca de ouro, mas de conselho. Muitos homens
me procuram a fim de que lhes consiga dinheiro suficiente para pagar por suas loucuras, mas até
onde sei ninguém ainda veio até aqui atrás de um conselho. Contudo, quem realmente pode ser
mais hábil nesses assuntos que o emprestador de dinheiro, a quem geralmente se pede socorro
nos momentos críticos?

“Você comerá comigo, Rodan”, continuou ele. “Será meu convidado esta noite. Ando!”,
ordenou ao escravo negro, “estenda um tapete para o meu amigo Rodan, o fabricante de
lanças, que veio me pedir um conselho. Ele será meu honrado conviva. Traga-lhe bastante
comida e reserve-lhe a maior taça da casa. Escolha o melhor vinho, que ele bem o merece.

“Agora me diga quais são seus problemas.”

— Trata-se de um presente do rei.

— Um presente do rei? O rei o presenteou com algo que acabou se transformando num
problema para você? Que tipo de presente?

— Por ter ficado muito satisfeito com um desenho que lhe apresentei para uma nova ponta nas
lanças da guarda real, nosso soberano me deu de presente cinqüenta moedas de ouro, e agora me
acho totalmente desorientado.

“Tenho sido quase a todo instante intimado por aqueles que gostariam de compartilhar essa
riqueza comigo.”

— E natural. Os homens sempre querem mais ouro do que têm e gostariam de ver aquele que o
ganha facilmente dividi-lo com eles. Mas você não pode dizer não? Sua vontade não é tão forte
quanto seu punho?

— Posso dizer não a muita gente, mas às vezes seria mais fácil dizer sim. Poderia recusar-me a
dividi-lo com minha irmã única, a quem sou inteiramente devotado?

— Certamente sua própria irmã não pensaria em privá-lo do gozo de sua recompensa.

— Mas é em consideração a Araman, seu marido, que ela gostaria que se tornasse um rico
comerciante. Ela acha que ele nunca teve uma chance e me implora que lhe empreste esse
dinheiro, a fim de que ele possa tornar-se um próspero comerciante, pagando-me então a partir de
seus lucros.

— Meu amigo — comentou Mathon —, esse é um belo assunto para uma discussão. O ouro
traz para o seu possuidor responsabilidade e uma nova maneira de agir com os companheiros.
Traz o medo de perdê-lo e até de ser enganado. Traz uma sensação de poder e disponibilidade
para praticar o bem. Pode ainda fazer com que suas melhores intenções lhe arranjem belas
dificuldades.

“Nunca ouviu falar daquele fazendeiro de Nínive que podia entender a linguagem dos
animais? Acho que não, pois não é realmente o tipo de história que os homens gostam de contar
a uma pessoa ocupada com a fundição de bronze. Mas quero contá-la a você para que saiba que
pedir emprestado e emprestar significa muito mais do que o simples fato de o ouro passar das mãos
de uma pessoa para as mãos de outra.

“Esse fazendeiro, que podia entender a conversa que os animais mantinham entre si, demorava-se
toda noite no quintal da fazenda justamente para ouvir o que eles diziam. Uma noite, ele ouviu o
cavalo queixando-se ao asno dos rigores de sua sorte: ‘Trabalho puxando o arado da manhã à
noite. Por mais quente que esteja o dia, por mais cansadas que se sintam minhas pernas, por mais
que o laço esfole meu pescoço, sou obrigado a dar conta do recado. Você, entretanto, é uma criatura
que tem suas horas de descanso. Você é forrado com mantas multicores e não tem mais que
carregar nosso amo aos lugares aonde ele deseja ir. Quando o homem não sai, você fica
descansando e comendo a grama verde durante todo o dia.’

“O asno, apesar de seus famosos coices, era um bom companheiro e simpatizava com o cavalo.
‘Meu bom amigo’, replicou ele, ‘você realmente trabalha muito pesado, e eu gostaria de ajudá-lo.
Por isso direi como pode fazer para ter um dia de descanso. Pela manhã, quando o escravo vier
para amarrá-lo ao arado, deite-se no chão e solte os maiores gemidos que puder, para que ele
diga que você se encontra doente e não tem condições de trabalhar.’

“Assim fez o cavalo, e no outro dia o escravo saiu à cata do amo para comunicar-lhe que o
cavalo estava doente e não podia ser amarrado ao arado.

” ‘Então’, disse o fazendeiro, ‘use o asno para fazer o serviço.’

“Durante o dia inteiro, o asno, que só tinha querido ajudar um companheiro, viu-se compelido
a dar conta da tarefa do outro. À noite, depois de desamarrado do arado, seu coração estava
amargo, as pernas em frangalhos, o pescoço todo esfolado.

“O fazendeiro tinha permanecido no terreiro para escutar.

“O cavalo iniciou a conversa. ‘Você é um bom amigo. Devido ao seu sábio conselho, pude
descansar durante todo o dia.’

” ‘Enquanto eu’, reclamou o asno, ’sou como toda essa gente de bom coração que começa por
ajudar um amigo e acaba sendo obrigado a fazer as tarefas dele. A partir de agora, você deve
puxar como sempre o arado, pois ouvi o amo ordenar ao escravo que o leve para o açougueiro se
você ficar doente de novo. Tomara que ele o faça mesmo, pois você é um companheiro
preguiçoso.’ A partir de então não se falaram mais, aquele episódio tendo acabado com a amizade
dos dois. Saberia me dizer a moral dessa história, Rodan?”

— É uma boa história — respondeu Rodan —, mas não percebo que moral pode haver.

— Não achava que você saberia. Mas existe e é muito simples. Apenas isto: se deseja ajudar um
amigo, faça-o, mas de modo que os fardos dele não sejam colocados sobre os seus ombros.

— Não tinha pensado nisso. É uma sábia moral. Não quero assumir os fardos do marido de minha
irmã. Mas há uma coisa: você empresta a muita gente. Os que pedem emprestado nãolhe pagam?

Mathon sorriu o sorriso daqueles cuja alma está repleta de experiências da vida.

— Que emprestado: de dinheiro teria êxito se os que pedem emprestado não pudessem pagar? O
emprestador não deve ser sensato e considerar cuidadosamente se seu ouro terá um desempenho
proveitoso para o credor e se voltará em maior quantidade para ele; ou se será devastado por uma
pessoa incapaz de fazer um uso inteligente do dinheiro, deixando-o sem seu tesouro e obrigando aquele
que fez o empréstimo a um débito que não pode acertar? Eu lhe mostrarei os objetos guardados em
minha caixa de penhores e deixarei que eles lhe contem algumas dessas histórias.

Ele trouxe para o aposento uma grande caixa forrada com pele de porco vermelha e enfeitada com
desenhos de bronze. Colocou-a no chão e agachou-se diante dela, as duas mãos sobre a tampa.

— Exijo de cada pessoa a quem empresto dinheiro um penhor que fica guardado nesta caixa até que
a dívida seja saldada. Quando pagam, devolvo-o; se nunca o fazem, fico com o penhor como uma
permanente recordação daquele que não foi digno de minha confiança.

“Os empréstimos mais seguros, de acordo com as experiências que tive com minha caixa de penhores,
são para aqueles cujos bens têm mais valor que o empréstimo que desejam. São donos de terras ou
jóias, camelos ou outras coisas que podem ser vendidas para amortizar a quantia em débito. Alguns
penhores são jóias mais valiosas que a dívida. Outros são documentos estabelecendo que em
caso de não-pagamento o devedor passa automaticamente para o meu nome uma determinada
propriedade. Fazendo empréstimos dessa natureza, asseguro-me quanto ao retorno do meu capital
mais os rendimentos, pois o empréstimo está baseado no valor dos bens.

“Em outra classe acham-se os devedores que têm capacidade para ganhar dinheiro. São como
você, que trabalha ou presta um serviço em troca de uma remuneração. Eles têm algum tipo de
renda, e, se são honestos e não sofrem nenhum infortúnio, sei que posso contar com o pagamento
do empréstimo, além dos juros combinados. Tais compromissos estão baseados no esforço humano.

“Temos ainda os que não possuem nada de valor nem mostram capacidade para uma
remuneração periódica. A vida é dura, e sempre existirá quem se veja derrotado por suas
exigências. Aos empréstimos que lhes faço, ainda que tenha o cuidado de estabelecer quantias
mínimas, minha caixa de penhores poderá censurar-me pêlos anos vindouros, a menos que tais
quantias sejam garantidas por bons amigos desses devedores que os vêem como pessoas
honradas.”

Mathon destravou o fecho e abriu a tampa. Rodan curvou-se avidamente para a frente.

No alto da caixa, uma echarpe cor de bronze descansava sobre um pano vermelho. Mathon pegou
a echarpe e acariciou-a.

— Isto ficará para sempre em minha caixa de penhores, porque o dono já passou há muito
para a grande escuridão. Continuo guardando esta garantia mais como uma prova de sua própria
recordação, pois ele foi um bom amigo. Fizemos muito bons negócios juntos até que, voltando de
uma viagem ao leste, ele trouxe uma mulher para casar-se, uma mulher bonita, mas não como as
nossas. Uma criatura encantadora. Ele gastou todo o seu dinheiro para satisfazer os desejos dela.
Veio até mim em grande desespero quando já se achava numa situação deplorável. Discutimos o
assunto. Contei-lhe que o ajudaria a retomar seus próprios negócios. Ele jurou pelo Grande Touro
que estava disposto a fazê-lo. Mas não era o que estava escrito. Numa briga, ela enfiou-lhe uma faca
no peito.

— E ela? — perguntou Rodan.

— Sim, claro, isto pertencia a ela. — Ele apanhou o pano vermelho. — Amargando um
terrível remorso, a mulher atirou-se às águas do Eufrates. Esses dois empréstimos nunca serão
pagos. A caixa de penhores mostra-lhe, Rodan, que os seres humanos, sob a ação de fortes
emoções, constituem um grande risco para o emprestador de dinheiro.

“Aqui! Isto é diferente!” Ele apanhou um anel de osso de boi. “Isto pertence a um
fazendeiro. Eu compro os tapetes de sua mulher. Os gafanhotos arrasaram-lhes a plantação, e
eles ficaram sem comida. Ajudei o fazendeiro, e, quando houve a nova colheita, ele me pagou.
Mais tarde ele voltou e me falou de estranhas cabras numa distante terra, tal como as tinha
descrito um viajante. Animais com pêlos tão finos e macios que deles se podiam fazer tapetes
mais belos que quaisquer outros já vistos na Babilônia. Queria trazer um rebanho, mas não tinha
dinheiro. Assim, emprestei-lhe dinheiro para a viagem e para comprar as cabras. Agora sua
criação já começou, e no próximo ano surpreenderei os nobres da Babilónia cornos mais caros
tapetes que sua grande fortuna pode comprar. Em breve estarei devolvendo seu anel. Ele insiste
em me pagar imediatamente.”

— Alguns clientes fazem isso? — perguntou Rodan.

— Se pedem para propósitos que lhes tragam de volta o dinheiro, sim; mas, se pedem por
causa de suas imprudências, é preciso ter cuidado, pois você pode acabar ficando sem o seu
dinheiro.

— Fale-me sobre isto — solicitou Rodan, retirando da caixa um bracelete de ouro incrustado
com jóias de raro desenho.

— As mulheres agradam ao meu bom amigo — caçoou Mathon.

—Ainda sou muito mais jovem que você — retorquiu Rodan.

— Concordo, mas desta vez você está supondo uma história de amor onde ela não existe. A
dona deste penhor é gorda, enrugada, e tagarela o tempo todo, quase me levando à loucura. Houve
um tempo em que ela e o marido tinham dinheiro e eram bons clientes, mas as coisas começaram a
dar errado para o lado deles. Ela tem um filho a quem gostaria de tornar um comerciante. Assim,
me procurou e pediu-me dinheiro emprestado para que o filho pudesse entrar como sócio do
líder de uma caravana que viajava com seus camelos, negociando numa determinada cidade o que
compravam em outra.

“Esse homem revelou-se um tratante, pois deixou o pobre do rapaz perdido numa cidade
longínqua, sem dinheiro nem amigos, dando o fora enquanto ele dormia. Talvez ele me pague
quando for adulto; até lá não tenho rendimento algum sobre o empréstimo — só muita conversa.
Mas devo admitir que as jóias valem mais que a dívida.”

— Ela pediu seu conselho quanto à sensatez do empréstimo?

— Muito pelo contrário. Ela mesma imaginou o filho como um rico e poderoso homem da
Babilónia. Sugerir outra coisa teria deixado a mulher enfurecida. Tentei com habilidade dissuadi-
la. Eu sabia dos riscos que esse jovem inexperiente estava correndo, mas, como ela estava
oferecendo um penhor, não pude recusar.

“Isto”, continuou Mathon, balançando um pedaço de cordão de embrulho amarrado num nó,
“pertence a Nebatur, o negociante de camelos. Quando ele compra um rebanho cujo valor
ultrapassa suas reservas, ele me traz este nó, e eu lhe empresto de acordo com suas necessidades.
É um sábio negociante. Tenho confiança em seu bom tirocínio e posso emprestar-lhe livremente.
Muitos outros comerciantes da Babilónia gozam de credibilidade junto a mim por causa do
comportamento correto que costumam ter. Seus penhores entram e saem freqüentemente de minha
caixa. Bons comerciantes são uma vantagem para nossa cidade, e isso permite que eu os ajude a
manter os negócios que tornam a Babilônia tão próspera.”

Mathon apanhou um besouro feito de turquesa e atirou-o desdenhosamente ao chão.

— Um escaravelho do Egito. O dono dele não está preocupado com que eu receba de volta o meu
dinheiro. Quando o cobro, ele me responde: “Como posso pagar se o destino me persegue? Você já
tem muito.” Que posso fazer? O penhor pertence na verdade a seu pai — um homem de valor, de
parcos recursos, que teve de hipotecar terras e gado para sustentar os empreendimentos do filho. O
jovem conseguiu algum sucesso no início e logo ficou empolgado com a perspectiva de obter uma grande
fortuna. Era ainda imaturo, e suas empresas foram à bancarrota.

“A juventude é ambiciosa. Ela gostaria de encontrar atalhos para a riqueza e as boas coisas que esta
propicia. Para conseguir ficar rapidamente rico, o jovem é capaz de fazer empréstimos insensatos.
Como ainda não reuniu um bom número de experiências, não percebe que uma dívida desesperada é
como poço profundo aonde se pode descer muito depressa e ali ficar, por muitos dias, lutando em vão
para sair. É um poço de lamentações e remorsos aonde não chega a luz do sol e a noite não traz um
sono reparador. Mas não costumo tirar a força daqueles que pedem dinheiro emprestado. Encorajo-os,
na verdade. Recomendo-o sempre, desde que seja para um bom propósito. Eu mesmo fiz meu
primeiro negócio bem-sucedido com dinheiro emprestado.

“Todavia, o que pode fazer o emprestador de dinheiro num caso como esse? O jovem se acha em
desespero e não consegue fazer nada. Está desanimado. Não tenta o menor esforço para saldar seu
débito. Meu coração luta contra a idéia de privar o pai de sua terra e de seu gado.”

—Você está me contando muita coisa que eu realmente queria saber — arriscou Rodan —, mas ainda
não respondeu à pergunta que lhe fiz. Devo emprestar minhas cinqüenta moedas de ouro ao marido de
minha irmã? Elas representam muito para mim.

— Sua irmã é uma excelente mulher por quem tenho grande estima. Se o marido dela me procurasse
para pedir cinqüenta moedas de ouro, eu o interrogaria quanto ao uso que estava pretendendo
dar a uma soma como essa.

“Se ele me respondesse que seu desejo era tornar-se um comerciante e investir em jóias e
suprimentos finos, eu diria: ‘Quais são seus conhecimentos nesse ramo de negócios? Você sabe
onde comprar a preços mais baixos? Sabe onde vender a preços vantajosos?’ Ele pode dizer sim a
todas essas perguntas?”

— Não, não pode — admitiu Rodan. — Ele já me ajudou na fabricação de lanças e nas lojas.

— Então eu lhe diria que seus propósitos não são sensatos. Os comerciantes devem aprender o
seu ofício. Por mais valiosa que fosse, sua ambição não teria chances de sucesso, e eu não lhe
emprestaria dinheiro algum.

“Mas vamos supor que ele dissesse: ‘Sim, já ajudei muitos comerciantes. Sei como viajar a
Esmirna e ali comprar a preços baixos os tapetes tecidos pelas donas de casa. Conheço igual-
mente muitos homens ricos na Babilônia dispostos a pagar bem por eles.’ Eu diria: ‘Seu propósito
é sensato, e sua ambição, louvável. Ficarei feliz em lhe emprestar as cinqüenta moedas de ouro,
se você me der uma garantia equivalente ao valor do débito.’ Digamos que ele contra-atacasse:
‘Não tenho outra garantia senão minha condição de homem honesto e a palavra de que lhe
pagarei bem pelo empréstimo.’ Eu seria obrigado a ponderar: ‘Tenho em alta conta cada moeda
de ouro. Se os salteadores roubarem essas moedas de ouro durante sua viagem a Esmirna ou seus
tapetes quando estiver voltando, você então não terá qualquer possibilidade de reembolsar-me, e
meu ouro terá ido embora.’

“O ouro, Rodan, é a mercadoria do emprestador de dinheiro. E fácil emprestar. Se você
concede um empréstimo insensato, ele tem poucas chances de voltar para o seu bolso. O empres-
tador prudente deseja não o risco do empreendimento, mas a garantia de que vai ser
reembolsado.

“É uma coisa boa socorrer os que estão em apuros, ajudar aqueles a quem o destino tem
reservado contrariedades pesadas, prestar assistência aos que estão começando, para que eles possam
progredir e tornarem-se cidadãos de valor, mas tudo isso deve ser propiciado com sensatez. Você
com certeza ainda se recorda do asno da história — em nosso desejo de ser úteis, podemos correr
o risco de carregar os fardos que pertencem a outrem.

“Novamente me desviei de sua pergunta, Rodan, mas ouça minha resposta: guarde consigo
suas cinqüenta moedas de ouro. Aquilo que você ganha com o seu trabalho e aquilo que lhe dão
como uma recompensa pertencem a você, e ninguém tem o direito de compartilhá-los a menos
que você mesmo tenha essa intenção. Se quiser emprestar seu dinheiro a fim de aumentar sua
fortuna, faça-o com cautela e diversificando os clientes. Não gosto de dinheiro parado, mas menos
ainda de dinheiro mal emprestado.

“Há quantos anos trabalha como um fabricante de lanças?”

— Três anos completos.

— Quanto guardou, sem contar o presente do rei?

— Três moedas de ouro.

— Em cada ano trabalhado você deixou de adquirir boas coisas para economizar de seus
vencimentos uma moeda de ouro?

— É como está dizendo.

— Então poderia economizar em cinqüenta anos de trabalho cinqüenta moedas de ouro por sua
abnegação?

— Seria realmente uma vida inteira de trabalho.

— Acha que sua irmã desejaria acabar com as economias de cinqüenta anos de trabalho para
que seu marido possa fazer uma tentativa na profissão de comerciante?

— Bem, nos termos que você está usando, não.

— Então vá até ela e diga-lhe: “Trabalhei todos os dias, exceto os de descanso, durante três
anos, da manhã à noite, e recusando a mim mesmo muitas coisas que meu coração desejava. Minhas
economias em cada ano de trabalho e renúncia não passam de uma moeda de ouro. Você é minha
irmã favorita, e eu gostaria que seu marido encontrasse algo que lhe trouxesse bastante
prosperidade. Se ele submeter a mim um projeto que pareça sensato e cabível a meu amigo
Mathon, então lhe emprestarei de bom grado minhas economias de um ano inteiro, para que ele
possa ter uma oportunidade de provar que tem condições de ser bem-sucedido.” Faça isso, e, se ele
tiver dentro de si a alma dos exitosos nos negócios, não encontrará dificuldade em prová-lo. Se falhar,
ficará devendo a você uma quantia que poderá pagar-lhe em pouco tempo.

“Sou um emprestador de dinheiro porque tenho mais ouro do que posso usar em meu próprio
negócio. Faço com que esse excedente trabalhe para os outros e dessa forma produza maisouro. Não
posso me dar o luxo de correr o risco de perdê-lo, porque trabalhei muito e recusei a mim mesmo
muitas coisas para ter condições de guardá-lo. Por isso, não o emprestarei mais, se não estiver certo de
que ele se acha em boas mãos e que voltará para mim. Tampouco o emprestarei, se não estiver conven-
cido de que seus ganhos podem ser imediatamente pagos.

“Contei-lhe, Rodan, alguns dos segredos de minha caixa de penhores. Por eles, você pode
perceberas fraquezas dos homens e a ânsia que experimentam em pedir emprestado, ainda que não
estejam suficientemente certos de que terão como saldar a dívida. Por aí você pode ver quão
freqüentemente suas altas esperanças de obter grandes lucros, se apenas tivessem dinheiro, não
passam de esperanças falsas, que eles não têm capacidade nem treinamento para atender.

“Agora, Rodan, você tem condições de usar sua recompensa para ganhar mais ouro. Pode até tornar-
se, se quiser, um emprestador de dinheiro. Se souber preservar adequadamente o seu tesouro, ele
produzirá muitos lucros para você e será uma rica fonte de satisfação e vantagens durante todos os dias
de sua vida. Mas, se deixar escapá-lo, ele será uma fonte constante de remorsos e lamentações.

“O que deseja mais para esse ouro que você traz no alforje?”

— Guardá-lo com segurança.

— Bem falado — replicou Mathon, aprovando. — Primeiro deseja guardá-lo com segurança. Acha
que sob a custódia do marido de sua irmã ele estaria realmente a salvo de uma possível perda?

— Temo que não, pois ele não é um bom guardador de dinheiro.

— Portanto, não se deixe enlear por qualquer sentimento de obrigação em confiar seu tesouro
a quem quer que seja. Se quiser ajudar sua família e amigos, busque outros meios que não o de
arriscar a perda de seu tesouro. Não esqueça que o ouro consegue escapulir de modo
inesperado das mãos de todos aqueles que não sabem guardá-lo com inteligência. Consumir sua
fortuna de maneira extravagante é o mesmo que deixar que os outros acabem com ela por você.

“Depois da segurança, o que deseja para seu tesouro?”

— Que ele me faça ganhar mais dinheiro.

— Novamente fala com sabedoria. Ele foi feito para ganhar e crescer o máximo possível. O
dinheiro emprestado sensatamente pode dobrar seus lucros antes que um homem como você chegue
à velhice. Se se arriscar a perdê-lo arrisca-se igualmente a deixar de ganhar tudo o que ele pode
render.

“Por isso, não se torne a presa dos planos fantásticos de homens sem prática, que sempre
acreditam encontrar meios de fazer o dinheiro alcançar lucros extraordinariamente altos. Tais
planos são criações de visionários que nada sabem a respeito das infalíveis leis do negócio. Seja
moderado naquilo que espera ganhar, para que possa garantir e gozar de sua fortuna. Empregá-
la sob a promessa de retomo usurário é um convite à perda.

“Busque associar-se a homens e empreendimentos cujo sucesso é estabelecido, para que seu
tesouro possa ganhar livremente com a perícia deles e ser guardado com segurança pela
sabedoria e experiência deles.

“Assim, espero que você possa evitar os infortúnios que acometem muitos dos filhos dos
homens a quem os deuses decidiram por bem confiar alguma riqueza.”

Quando Rodanquis agradecer-lhe por seus sábios conselhos, Mathon fez que não ouvira, mas
ainda disse:

— O presente do rei lhe propiciará muita sabedoria. Se resolver guardar as cinqüenta
moedas de ouro, você precisará ser realmente cauteloso. Muitos usos o tentarão.
Ouvirá muitos conselhos. Numerosas oportunidades de fazer grandes lucros serão
oferecidas a você. As histórias de minha caixa de penhores devem lembrá-lo de verificar bem as
possibilidades de retorno antes de deixar que uma única moeda de ouro saia de seu bolso.
Quando precisar de mais conselhos, venha me procurar. Eles são dados de graça. Antes de
retirar-se, leia o que escrevi embaixo da tampa de minha caixa de penhores. Isso se aplica
tanto a quem pede quanto a quem empresta dinheiro:

“É melhor uma pequena cautela do que um grande remorso”

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