Escrito em Fevereiro 24th, 2008 às 5:57 pm por Paulo Páscoa

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“Se um homem tem sorte, não há como prever extensão possível
de sua boa fortuna. Joguem -no no Eufrates, e ele se salvará a nado com
uma pérola na mão.”

— Provérbio babilônico

O DESEJO DE ter sorte é universal. Ele era tão forte no peito dos homens há quatro mil anos na
antiga Babilónia quanto o é atualmente no coração dos homens. Todos nós esperamos ser
favorecidos pela caprichosa deusa da boa sorte. Há alguma maneira de encontrá-la e atrair não
apenas sua atenção favorável, mas também seus generosos favores?

Há alguma maneira de atrair a boa sorte?

Era exatamente isso que os antigos habitantes da Babilónia queriam saber. Eles passavam por
homens argutos e entusiasmados pensadores, o que explica por que a velha cidade tornou-se a mais
rica e a mais poderosa de seu tempo.

Nessa época distante não havia escolas nem colégios. Possuíam, entretanto, um centro de
aprendizado, uma verdadeira escola prática. Entre os prédios guarnecidos de torres da Babilônia,
havia pelo menos um que emulava em importância com o palácio do rei, os jardins suspensos e os
templos dos deuses. Os livros de história quase não o mencionam, embora tivesse exercido uma
poderosa influência sobre o pensamento daquele tempo.

Tal prédio era o Templo do Saber, onde os conhecimentos do passado eram apresentados por
professores voluntários e onde assuntos de interesse popular eram debatidos em reuniões abertas.

Dentro de suas paredes todos os homens se encontravam como iguais. O mais humilde dos
escravos podia discutir sem medo de represálias as opiniões de um príncipe da casa real.

Entre os muitos que freqüentavam o Templo do Saber, havia um sábio chamado Arkad, o homem
mais rico da Babilónia. Ele tinha seu próprio salão especial, onde quase todas as noites um grupo
considerável de homens, alguns idosos, alguns muito jovens, mas a maioria na meia-idade,
reuniam-se para discutir e perguntar sobre assuntos de interesse. Vamos supor que estamos
ouvindo uma dessas conversas para ver como eles encaravam a questão da boa sorte.

O sol tinha acabado de se pôr como uma grande bola de fogo brilhando através da areia do
deserto, quando Arkad subiu a seu costumeiro tablado. Perto de oitenta homens já esperavam sua
chegada, reclinados sobre pequenos tapetes estendidos no chão, e mais gente ainda aparecia para
aumentar a assistência.

— O que vamos discutir esta noite? — perguntou Arkad. Depois de uma breve hesitação, um
tecelão alto dirigiu-se a ele, levantando-se como era de costume.

— Tenho um assunto cuja discussão gostaria de ouvir, embora receie que pareça ridículo a
você, Arkad, e aos amigos aqui presentes.

Depois de incentivado por Arkad e pelos próprios colegas a apresentá-lo, ele continuou:

— Creio estar com sorte hoje, pois achei uma bolsa com moedas de ouro dentro. Meu
grande desejo é continuar tendo sorte. Sentindo que todos os homens compartilham comigo tal
desejo, sugiro que debatamos como atrair a boa sorte, para que possamos descobrir maneiras de
contar com ela.

— Um belo e interessante tema acaba de ser proposto — comentou Arkad —, na verdade, um
dos mais valiosos de nossa discussão. Para alguns homens, a boa sorte não passa de um
acontecimento casual que, como um acidente, pode ocorrer a alguém sem propósito ou razão.
Outros acreditam que a responsável por qualquer boa fortuna é a nossa mais generosa deusa,
Ashtar, sempre ansiosa para recompensar com belas dádivas aqueles que lhe agradam.
Respondam, meus amigos, devemos pesquisar se existem meios pêlos quais a boa sorte possa ser
incentivada a visitar cada um de nós?

— Sim! Sim! E muito mais que isso! — respondeu o crescente grupo de ávidos ouvintes.

— Para começar nossa discussão — continuou Arkad —, ouçamos primeiro aqueles dentre nós
que passaram por experiências similares à do tecelão, tendo achado ou recebido, sem qualquer esforço
de sua parte, tesouros valiosos ou jóias.

Houve uma pausa, todos esperando que alguém tomasse a palavra para atender à sugestão de
Arkad, mas ninguém o fez.

— Mas como, ninguém? — disse Arkad —, então esse tipo de boa sorte deve ser realmente raro.
Quem agora oferecerá uma sugestão para continuarmos nossa busca?

— Eu o farei — disse um jovem bem-vestido, levantando-se. — Quando um homem fala de sorte,
não é natural que seus pensamentos estejam voltados para as mesas de jogo? Não é ali que
encontramos muitos homens cortejando o favor da deusa na esperança de que ela os faça ganhar a
todo momento?

Como o jovem tivesse, depois dessas breves palavras, retomado seu lugar, uma voz ergueu-se:

— Não pare! Continue sua história! Diga-nos: por acaso pôde contar com o favor da deusa nas mesas
de jogo? Ela fez com que os cubos caíssem com o lado vermelho virado para cima, enchendo sua bolsa à
custa do homem das apostas, ou, ao contrário, permitiu que o lado azul fosse o vitorioso, propiciando
ao outro passar a mão em suas moedas de prata arduamente conquistadas?

O jovem juntou-se aos risos sem maldade da sala e replicou:

— Não posso deixar de admitir que a deusa não parecia saber que eu me achava no local. Mas e
quanto aos demais? Encontraram-na esperando em tais lugares para rolar os cubos em favor de vocês?
Estamos ávidos para ouvir tanto quanto para aprender.

— Um sábio começo — atalhou Arkad. — Achamo-nos aqui para considerar todos os lados de cada
questão. Ignorar as mesas de jogo seria fechar os olhos a um instinto comum a muitos homens que
gostam de tentar a sorte, apostando uma pequena soma de dinheiro na esperança de conseguir somas
bem maiores.

— Isso me traz à lembrança as corridas de ainda ontem — gritou um outro ouvinte.— Se a deusa
freqüenta as mesas de jogo, certamente não desdenha as corridas, onde carros de guerra
dourados e cavalos espumantes oferecem muito mais excitação. Conte-nos honestamente, Arkad,

foi ela quem lhe soprou que devia apostar naqueles cavalos cinza de Nínive? Eu estava de pé bem a seu
lado e mal pude acreditar em meus olhos quando o vi apostando neles. Você sabe tão bem quanto nós que
nenhuma parelha em toda a Assíria pode competir com nossos amados baios numa bela corrida.

“A deusa por acaso soprou em seus ouvidos que apostasse nos cavalos cinza porque na última volta
o preto, que corria por dentro, tropeçaria, atrapalhando de tal modo nossos rapazes que os cavalos de
Nínive acabariam ganhando o páreo numa vitória inesperada?”

Arkad sorriu indulgentemente devido ao gracejo.

— Que motivo temos para pensar que a boa deusa se ocuparia das apostas de um homem num cavalo de
corrida? Para mi m, ela é uma deusa de amor e dignidade cujo prazer consiste em ajudaros necessitados
e recompensar aqueles que fizeram por onde merecer. Espero encontrá-la não nas mesas de jogo
ou nas corridas em que os homens perdem mais do que ganham, mas nos lugares onde as ações
humanas têm mais valor e são mais dignas de recompensa.

“No cultivo da terra, nas relações comerciais honestas, em qualquer ocupação humana há
oportunidade de lucros decorrentes do esforço pessoal e de negócios bem realizados. Naturalmente,
nem sempre o indivíduo será recompensado, porque às vezes seu juízo pode falhar, tanto quanto, em
outras ocasiões, os ventos c o mau tempo podem acarretar o malogro de todos os seus esforços. Mas, se
persistir, poderá contar com bons lucros no futuro. Isso acontece porque as chances de lucro estão sem-
pre a seu favor.

“Mas, quando um homem joga apostando, a situação se inverte, pois as possibilidades de
lucro acham-sefreqüentemente contra ele e a favor daquele que dirige a banca. O jogo sempre
beneficia este último. Faz parte do negócio que ele tenha direito a uma percentagem sobre as
quantias apostadas. Poucos jogadores percebem como são certos os lucros do dono da banca e
como são incertas suas próprias chances de vencer.

“Consideremos como exemplo as apostas feitas no jogo de cubos. Toda vez que o cubo é
lançado nós apostamos no lado que cairá virado para cima. Se der o vermelho, o dono da banca
tem de nos pagar quatro vezes o valor de nossa aposta. Se der, entretanto, qualquer outro dos
cinco lados restantes, perdemos. Assim, em cada jogada contamos com cinco chances de perder,
mas, uma vez que o vermelho paga quatro por um, temos quatro chances de vencer. Numa única
noite de jogo, o dono da banca pode contar com lucros certos no valor de um quinto de todas as
apostas feitas. Pode um homem esperar vencer senão ocasionalmente contra vantagens
arranjadas de tal modo que, pelo simples fato dele entrar numa casa de jogo, já o despojam de um
quinto de suas apostas?”

— Mas há casos em que alguns homens conseguem ganhar somas bastante altas — arriscou
um dos ouvintes.

— Certamente — continuou Arkad. — Percebendo isso, pergunto-me se o dinheiro
conseguido dessa maneira traz um valor permanente àqueles que têm sorte. Entre meus conheci-
dos se acham muitos dos mais exitosos homens da Babilônia, mas sinto-me incapaz de apontar um
único que tenha começado a triunfar a partir de uma fonte como essa.

“Todos vocês aqui reunidos esta noite conhecem muitos de nossos abastados cidadãos. Seria
do maior interesse para mim saber quantos deles podem creditar às mesas de jogo o início de seus
anos venturosos. E se cada um de vocês falasse dos que conhece. O que dizem?”

Depois de prolongado silêncio, um gaiato aventurou:

— Sua pergunta inclui os donos da banca?

— Se não se lembra de mais ninguém… — respondeu Arkad. — Se nenhum de vocês pode
lembrar-se de ninguém, que tal vocês mesmos? Há bons vencedores por aqui hesitando em
recomendar o jogo como uma possível fonte de renda?

Seu desafio teve como resposta gemidos procedentes do fundo da platéia, que arrancaram
muitos risos.

— Teríamos a impressão de não estarmos procurando a boa sorte nos lugares que a deusa
costuma freqüentar — continuou ele. — Sendo assim, vamos explorar outros campos. Já vimos
portanto que ela não se acha no fato de toparmos casualmente com uma carteira perdida, nem
nas mesas de jogo. Quanto às corridas, devo confessar que perdi mais dinheiro do que ganhei.

“Vejamos agora nossas ocupações e negócios. Não é natural que, em seguida a uma vantajosa
transação, consideremos isso não como um belo lance da sorte, mas como uma justa recompensa
pelos nossos esforços? Estou inclinado a pensar que podemos estar desprezando as dádivas da

deusa. Talvez ela realmente nos assista quando não apreciamos sua generosidade. Alguém sugere
uma outra discussão?”

Um comerciante idoso levantou-se, repuxando sua elegante vestimenta branca.

— Com a permissão de vocês, honrado Arkad e caros amigos, ofereço uma sugestão. Se, como
você disse, devemos acreditar em nossa própria habilidade e capacidade para o êxito de nossos
negócios, por que não considerar os sucessos que estivemos a ponto de obter, mas que nos
escaparam, situações que teriam sido mais lucrativas? Elas teriam sido um raro exemplo de boa
sorte se realmente tivessem ocorrido. Como não se concretizaram, não podemos considerá-las como
nossa justa recompensa. Certamente haverá entre nós homens capazes de relatarem experiências
nesse sentido.

— Trata-se de uma bela abordagem — aprovou Arkad. — Quem entre vocês teve ao alcance
uma boa sorte somente para vê-la escapar?

Muitas mãos se ergueram, inclusive a do comerciante idoso. Arkad animou-o a tomar a palavra.

— Como autor da proposta, gostaríamos de ouvi-lo primeiro.

— Contarei de bom grado a vocês uma história — disse ele — que ilustra como a boa sorte pode
chegar tão perto de um homem e quão cegamente pode ele permitir que ela escape, trazendo perda
e remorso.

“Há muitos anos, quando ainda era jovem, recém-casado e no começo de uma promissora carreira,
meu pai me procurou e insistiu energicamente comigo para que eu participasse de um determinado
investimento. O filho de um de seus amigos tivera conhecimento de um pedaço de terra estéril não muito
além das muralhas de nossa cidade. Ficava bem acima do canal e não era alcançado pelas águas.

“O filho do amigo de meu pai arquitetou um plano para comprar essa terra, construir três
grandes rodas d’água que pudessem ser movidas por bois e dessa maneira trazer até ali a água
necessária. Depois, dividiria a terra em pequenos lotes e buscaria compradores entre os residentes da
cidade”.

“Mas ele não tinha dinheiro suficiente para levar a cabo um empreendimento desses. Tal como eu,
era jovem e contava com vencimentos apenas satisfatórios. Seu pai, como o meu, tinha uma grande
família e poucos recursos. Por isso resolveu ajudar o filho, tentando convencer um grupo de cidadãos
a entrar na empresa com ele. Seria um grupo de doze pessoas, cada uma das quais se
comprometeria a dar um décimo de seus ganhos para o empreendimento até que a terra estivesse em
condições de ser vendida. Cada qual então participaria dos lucros obtidos proporcionalmente ao que
tivesse empenhado no investimento”.

” ‘Você, meu filho’, disse-me meu pai, ‘acha-se agora na juventude. É meu profundo desejo que
comece a construir uma sólida posição para que se torne respeitado entre os homens. Gostaria que
se valesse de meus conhecimentos em razão dos próprios erros desatinados que andei cometendo no
passado.’

” ‘É o que desejo mais ardentemente, meu pai’, respondi-lhe.

” ‘Então, eis meu conselho. Era o que eu deveria ter feito na sua idade. Separe sempre um décimo de
seus ganhos para empregá-lo em investimentos favoráveis. Com esse décimo e com o que ele
próprio terá condições de obter, você poderá, muito antes de chegar à idade em que me encontro,
ter acumulado uma considerável soma.’

” ‘O que está dizendo, meu pai, são palavras de sabedoria. Realmente desejo enriquecer. Mas
há muitas maneiras de empregar meu dinheiro. Por isso estou ainda hesitante quanto a seguir
seus conselhos. Sou jovem. Há muito tempo.’

” ‘Pensei do mesmo modo em sua idade e, como pode ver, muitos anos acabaram se passando
sem que eu tivesse dado sequer os primeiros passos.’

” ‘Vivemos numa época diferente, pai. Evitarei cometer os seus erros.’

” ‘A oportunidade se apresenta diante de você, meu filho. E está oferecendo uma chance que
pode levá-lo à riqueza. Imploro-lhe, não adie as coisas. Procure amanhã mesmo o filho de meu amigo
e combine com ele pagar dez por cento dos seus ganhos para esse investimento. Sim, vá amanhã
mesmo. A oportunidade não espera por ninguém. Hoje está aqui; amanhã já não sabemos para
onde se foi. Por isso, não perca tempo!’

“Apesar dos conselhos de meu pai, hesitei. Tinham acabado de chegar à cidade, trazidas por
mercadores vindo do leste, roupas tão refinadas que eu e minha boa esposa logo pensamos em
comprar. Se tivesse de destinar um décimo de todos os meus ganhos para o tal investimento, seria

obrigado a privar-nos desse e de outros prazeres tão desejados. Demorei a tomar uma decisão, até
que ficou tarde demais. Tempos depois acabei me arrependendo. O empreendimento revelou-se
mais vantajoso do que qualquer um dos participantes podia prever. Essaé minha história,
mostrando como permiti que a boa sorte escapasse.”

— Nessa história vemos como a boa sorte costuma procurar o homem que acredita nas oportunidades
— comentou um homem moreno do deserto. — Para construir uma sólida posição é sempre
necessário um começo. Esse começo podem ser algumas moedas de ouro ou de prata que um
homem separa dos próprios ganhos para o seu primeiro investimento. Eu, por exemplo, sou
proprietário de muitas cabeças de gado. Tudo começou, quando ainda não passava de um
rapazinho, com a compra de um bezerro por uma moeda de prata. Sendo o início de minha riqueza,
isso teve uma grande importância para mim.

“Dar o primeiro passo para construir uma sólida posição é uma boa sorte que pode acontecer a
qualquer homem. O primeiro degrau, transformando os cidadãos que ganham por seus próprios
esforços em homens que começam a ter lucros pelo bom emprego de seu dinheiro, é sempre
importante. Alguns, afortunadamente, fazem isso quando jovens e deixam para trás, em termos de
sucesso financeiro, aqueles que só o fizeram muito tarde ou aqueles que infelizmente, como o pai do
mercador que acabamos de ouvir, nunca o fizeram.

“Tivesse nosso amigo, o mercador, seguido esse rumo em sua juventude, quando a oportunidade se
lhe apresentou, hoje estaria cumulado de muitos bens do mundo. Se a boa sorte de nosso amigo
tecelão o incentivar a subir um degrau como esse por sua vez, ele não será mais que o começo de
uma fortuna muito maior.”

— Obrigado! Gostaria de falar também. — Um homem de outro país levantou-se. — Sou sírio. Não
falo bem o idioma de vocês. Quero chamar esse amigo, o mercador, por um nome, embora vocês
possam achar que não se trata de um termo polido. Mas acho que é o único que ele merece. Só que não
conheço a palavra certa aqui na Babilónia. Se usar o meu próprio idioma, vocês não entenderão. Por
isso, por favor, cavalheiros, digam-me o nome correto para todo aquele que costuma deixar para depois
coisas que podem ser boas para ele.

— Procrastinador — gritou uma voz.

— É isso! — berrou o sírio, agitando muito as mãos —, ele despreza as oportunidades quando elas
aparecem. Prefere esperar. Ele diz: no momento já estou com muito bons negócios, daqui a pouco a
gente vê isso. As oportunidades não esperarão por um companheiro tão lento como esse. Elas acham
que, se um homem deseja realmente ter sorte, deve apressar-se. O sujeito que não se atira quando
as oportunidades se apresentam não passa de um procrastinador como o nosso amigo, esse mercador.

O mercador levantou-se, curvando-se logo em seguida, respeitosamente, em resposta ao riso geral.

—Tem toda a minha admiração, estrangeiro dentro de nossos portões, por não hesitar em falar a
verdade.

— Ouçamos agora uma outra história sobre oportunidades — atalhou Arkad. — Quem poderia falar
agora?

— Eu — respondeu um homem de meia-idade. — Sou um comprador de animais, em geral
camelos e cavalos. Às vezes também compro ovelhas e cabras. A história que tenho para contar
mostrará como a oportunidade veio até mim uma noite, quando menos a esperava. Foi talvez por isso
que a deixei escapar. Confio a vocês, entretanto, o julgamento.

“Retornando à cidade uma noite, depois de uma desencorajadora expedição de dez dias em busca de
camelos, fiquei muito irritado por encontrar os portões da cidade fechados e trancados. Enquanto meus
escravos armavam a tenda para o pernoite, que seria passado com pouca comida e sem água,
aproximei-me deum fazendeiro idoso que, como nós mesmos, achava-se fora das muralhas.

” ‘Honrado senhor’, dirigiu-se ele a mim, ‘por sua aparência, julgo estar falando com um
comprador. Se eu estiver certo, muito me agradaria vender-lhe o mais excelente rebanho de
ovelhas a um ótimo preço. Ai de mim, minha esposa encontra-se de cama, ardendo em febre. Preciso
voltar o mais depressa possível. Compre minhas ovelhas, para que eu e meus escravos montemos em
nossos camelos e partamos imediatamente.’

“Estava tão escuro que eu não podia ver o rebanho, mas pêlos balidos imaginei que devia ser bastante
grande. Havendo consumido inutilmente dez dias à procura de camelos, fiquei contente em fazer
negócio com ele. Em sua ansiedade, o homem acabou fixando um preço bem interessante. Aceitei,

sabendo que meus escravos podiam conduzir o rebanho através dos portões da cidade, pela manhã,
e vendê-lo com um lucro substancioso.

“Fechado o negócio, ordenei aos escravos que trouxessem tochas a fim de contarmos o rebanho,
que, segundo as declarações do fazendeiro, tinha novecentas cabeças. Não vou sobrecarregá-los, meus
amigos, com a narração de nossas dificuldades para contar esses animais cansados, mortos de fome e de
sede. Isso se revelou uma tarefa impossível. Por isso, disse claramente ao fazendeiro que eu teria de
esperar a luz do dia para conferir o rebanho e que só então lhe pagaria.

” ‘Por favor, honrado senhor’, lamentou-se ele, ‘conceda-me dois terços do preço esta noite para que
eu possa partir. Deixarei meu escravo mais inteligente e educado para ajudá-lo na contagem pela
manhã. Ele é de minha inteira confiança, e o senhor poderá pagar-lhe o restante.

“Mas eu era cabeçudo e me recusei a fazer qualquer pagamento naquela noite. No outro dia,
antes de despertar, os portões da cidade foram abertos, e quatro compradores saíram correndo à
procura de rebanhos. Estavam ávidos e dispostos a pagar altos preços, porque a cidade achava-se
ameaçada de sítio, e não havia comida suficiente. O velho fazendeiro conseguiu pelo rebanho três
vezes o preço que tinha combinado comigo. Foi desse modo que permiti que a boa sorte escapasse.”

— Essa é uma história extraordinária — comentou Arkad. — Que lição podemos tirar dela?

— A lição de que devemos fechar imediatamente um negócio quando estamos convencidos de que
ele vale a pena — declarou um venerável fabricante de selas. — Se o negócio for bom, você precisa
proteger-se tanto contra sua própria fraqueza quanto contra qualquer outro concorrente. Nós
mortais somos mutáveis. Quero dizer, mais aptos a mudar de opinião quando estamos certos do que
quando estamos errados. Nós somos realmente cabeçudos, estamos constantemente propensos a
vacilar e deixar as oportunidades escaparem. Meu primeiro juízo é sempre o melhor. Mas sempre
encontrei dificuldade para obrigar-me a prosseguir com um bom negócio. Por isso, como uma
proteção contra minhas próprias fraquezas, faço imediatamente um depósito para garanti-lo. Isso me
resguarda contra futuros remorsos por não ter aproveitado uma eventual boa sorte.

— Obrigado! Gostaria de falar novamente. — O sírio estava de pé. — Tais histórias são muito
parecidas. As oportunidades fugindo pela mesma razão. Estão sempre ao alcance das mãos do
procrastinador, trazendo-lhe bons planos. Ele sempre hesita, acha que deve esperar uma ocasião
melhor, o tempo passando. Como pode ser bem-sucedido o homem que age assim?

— Sábias palavras, meu amigo — respondeu o comprador. — A boa sorte dá as costas à
procrastinação nessas duas histórias. Mas isso não é incomum. O espírito de procrastinação está
dentro de todos os homens. Queremos ser ricos, mas, sempre que as oportunidades aparecem diante
de nós, esse espírito de procrastinação nos incita, com o nosso próprio consentimento, a adiar as coisas.
Por dar ouvidos a ele, tornamo-nos nossos piores inimigos.

“Em minha juventude não identificava essa tendência dos homens com o vocábulo que tanto
agradou a nosso amigo da Síria. Pensava, no início, que era o meu pobre juízo que me fazia perder
negócios tão lucrativos. Mais tarde joguei a culpa na minha teimosia. Por fim, tive de dar o braço a
torcer—tratava-se de um hábito de adiamento desnecessário onde se precisava de uma ação rápida e
decisiva. Como odiei a procrastinação quando a verdade finalmente se mostrou. Com a amargura de um
asno selvagem preso a uma carroça, fugi desse inimigo de meu sucesso.”

— Obrigado! Gostaria de fazer uma pergunta ao Sr. Mercador. — Era o sírio outra vez. — Você usa
roupas finas, que em nada se parecem com as de um homem pobre, e fala como um homem bem-
sucedido. Conte-nos, você ainda dá ouvidos à procrastinação?

— Como o comprador nosso amigo — respondeu o mercador —, eu também acabei por reconhecer a
procrastinação e bani-la. Para mim, ela provou ser uma inimiga, pois me observava, esperando ver
frustradas minhas realizações. A história que contei é apenas uma entre os muitos exemplos
similares que poderiam ser citados para mostrar como isso me desviou de minhas oportunidades.
Depois que compreendemos, não é difícil superar tal coisa. Nenhum homem permite voluntaria-
mente que o ladrão roube suas sacas de cereais. Tampouco permite voluntariamente que um
inimigo seduza seus clientes ou roube seus lucros. Quando uma vez percebi que meu inimigo estava
praticando ações como essas, subjuguei-o com determinação. Assim, todo homem deve dominar
seu próprio espírito de procrastinação se quiser participar dos ricos tesouros da Babilônia.

“O que diz, Arkad? Como você é o homem mais rico da Babilônia, muita gente acha que você
é um sortudo. Concorda comigo em que nenhum homem pode alcançar uma grande soma de
sucesso até que tenha completamente esmagado o espírito de procrastinação dentro de si?”

— As coisas realmente se passam como você afirma — admitiu Arkad. — Durante minha longa
vida observei gerações e gerações seguindo adiante por esses caminhos dos negócios, ciência e
aprendizado que conduzem ao sucesso na vida. As oportunidades surgem na vida de todos os
homens. Alguns se agarram a elas e direcionam-se para a satisfação de seus mais profundos
desejos, mas a maioria hesita, falha e fica para trás.

Arkad voltou-se para o tecelão.

— Você sugeriu que discutíssemos sobre a boa sorte. Deixe-nos saber o que pensa agora sobre
o assunto.

— Vejo a boa sorte sob uma luz diferente. Tinha pensado nisso como a coisa mais desejável
que pudesse acontecer a um homem, sem grande esforço de sua parte. Agora percebo que não se
trata de situações que alguém possa atrair para si mesmo. A partir de nossa discussão aprendi que
para atrairá boa sorte, é necessário aproveitar as oportunidades. Por isso, no futuro, farei o melhor que
puderquando as oportunidades surgirem para mim.

— Você pegou bem o sentido das verdades trazidas à luz por nossa discussão — replicou Arkad. —
A boa sorte, de acordo com o que vimos, segue de perto as oportunidades, mas raramente chega
de outro modo. O mercador nosso amigo teria sido um eleito da boa fortuna, se tivesse aproveitado
a oportunidade que a boa deusa pôs diante dele. Nosso amigo comprador, da mesma maneira,
teria sido outro eleito da boa fortuna, se não houvesse hesitado em comprar na hora o rebanho
de ovelhas, vendendo-o em seguida a um preço bastante vantajoso.

“Prosseguimos a discussão até encontrares meios pêlos quais a boa sorte pode ser atraída para
nós. Creio que achamos o caminho. Duas histórias ilustraram como a boa sorte éconseqüência das
oportunidades. Aqui está a moral que reside em histórias similares sobre a boa sorte, tenha esta
sido aproveitada ou não: A boa sorte pode ser atraída desde que estejamos atentos às oportunidades.

“Aqueles que se mostram ávidos por aproveitar as oportunidades para o seu próprio êxito
atraem o interesse da boa deusa. Ela está sempre ansiosa para ajudar aqueles que lhe agradam.
E os homens de ação são os que mais conseguem isso.

“A ação os conduzirá ao encontro do sucesso que vocês tanto desejam.”

Os homens de ação são favorecidos pela deusa da boa sorte”

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